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    O ESPÍRITO SANTO SOPRA ONDE QUER

    Terça-feira, dia 01 de Abril de 2008

    Santo Hugo de Grenoble, bispo, +1152

    Livro dos Actos dos Apóstolos 4,32-37.

    A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum.
    Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles.
    Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda
    e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um conforme a necessidade que tivesse.
    Assim, um levita cipriota, de nome José, a quem os Apóstolos chamaram Barnabé, isto é, «filho da consolação»,
    possuía uma terra; vendeu-a e trouxe a importância, que depositou aos pés dos Apóstolos.

    Livro de Salmos 93(92),1-2.5.

    SENHOR é rei, vestido de majestade; revestido e cingido de poder está o SENHOR.

    Firmou o universo, que não vacilará.
    Teu trono, SENHOR, está firme desde sempre; e Tu existes desde a eternidade.
    São dignos de fé os teus testemunhos, a tua casa está adornada de santidade por todo o sempre, ó SENHOR!

    Evangelho segundo S. João 3,7-15.

    Não te admires por Eu te ter dito: 'Vós tendes de nascer do Alto.'
    O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito.»
    Nicodemos interveio e disse-lhe: «Como pode ser isso?»
    Jesus respondeu-lhe: «Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas?
    Em verdade, em verdade te digo: nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas vós não aceitais o nosso testemunho.

    Se vos falei das coisas da terra e não credes, como é que haveis de crer quando vos falar das coisas do Céu?
    Pois ninguém subiu ao Céu a não ser aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem.
    Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto,
    a fim de que todo o que nele crê tenha a vida eterna.

    Comentário ao Santo Evangelho: Santo Hilário(c. 315-367), bispo de Poitiers doutor da Igreja
    La Trinité, 12, 55s; PL 10, 472

    «Não sabes de onde ele vem nem para onde vai»

    Deus todo poderoso, o apóstolo Paulo diz que o teu Espírito Santo «perscruta e conhece as profundezas do teu ser» (1Cor 2, 10-11), e que intercede por mim, fala-te por mim através de «gemidos inefáveis» (Rom 8, 26)... Nada exterior a ti sonda o teu mistério, nada estranho a ti é tão poderoso para medir a profundidade da tua majestade infinita. Tudo o que penetra em ti provém de ti; nada do que é exterior a ti tem o poder de te sondar...

    Creio firmemente que o teu Espírito Santo vem de ti pelo teu Filho único; ainda que não compreenda este mistério, tenho dele uma profunda convicção. É que, nas realidades espirituais que são o teu domínio, o meu espírito é limitado, tal como assegura o teu Filho único: «Não te admires se te disse: 'Deves nascer do alto, pois o Espírito Santo sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes nem de onde vem nem para onde vai'. Assim acontece a quem quer que nasça da água e do Espírito».

    Creio no meu novo nascimento sem o compreender, e apoio na fé aquilo que me escapa. Sei que tenho o poder de renascer, mas não sei como isso acontece. Nada limita o Espírito. Ele fala quando quer, diz o que quer e onde quer. A razão da sua partida e da sua chegada permanece incógnita para mim, mas tenho a convicção profunda da sua presença.

    "EU TE SAÚDO, Ó CHEIA DE GRAÇA!"

    Segunda-feira, dia 31 de Março de 2008

    Anunciação do Senhor (transferida) (ofício próprio) ,   S. Benjamim, diácono, mártir, +422 ,   Santo Acácio, bispo, +250

    Livro de Isaías 7,10-14.

    O SENHOR mandou dizer de novo a Acaz:
    «Pede ao SENHOR teu Deus um sinal, quer no fundo dos abismos, quer lá no alto dos céus.»
    Acaz respondeu: «Não pedirei tal coisa, não tentarei o SENHOR.»
    Isaías respondeu: «Escuta, pois, casa de David: Não vos basta já ser molestos para os homens, senão que também ousais sê-lo para o meu Deus?
    Por isso, o Senhor, por sua conta e risco, vos dará um sinal. Olhai: a jovem está grávida e vai dar à luz um filho, e há-de pôr-lhe o nome de Emanuel.

    Livro de Salmos 40(39),7-8.8-9.10.11.

    Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas abriste-me os ouvidos para escutar; não pediste holocaustos nem vítimas.

    Então eu disse: «Aqui estou! No Livro da Lei está escrito aquilo que devo fazer.»
    Então eu disse: «Aqui estou! No Livro da Lei está escrito aquilo que devo fazer.»

    Esse é o meu desejo, ó meu Deus; a tua lei está dentro do meu coração.
    Anunciei a tua justiça na grande assembleia; Tu bem sabes, SENHOR, que não fechei os meus lábios.

    Não escondi a tua justiça no fundo do coração; proclamei a tua fidelidade e a tua salvação. Não ocultei à grande assembleia a tua bondade e a tua verdade.

    Carta aos Hebreus 10,4-10.

    uma vez que é impossível que o sangue dos touros e dos bodes apague os pecados.
    Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz: Tu não quiseste sacrifício nem oferenda, mas preparaste-me um corpo.
    Não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados.
    Então, Eu disse: Eis que venho – como está escrito no livro a meu respeito – para fazer, ó Deus, a tua vontade.
    Disse primeiro: Não quiseste nem te agradaram sacrifícios, oferendas e holocaustos pelos pecados – e, no entanto, eram oferecidos segundo a Lei.
    Disse em seguida: Eis que venho para fazer a tua vontade. Suprime, assim, o primeiro culto, para instaurar o segundo.
    E foi por essa vontade que nós fomos santificados, pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez para sempre.

    Evangelho segundo S. Lucas 1,26-38.

    Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,
    a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria.
    Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.»
    Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação.
    Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus.
    Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.
    Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.»

    Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?»
    O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus.
    Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril,
    porque nada é impossível a Deus.»
    Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

    Da liturgia bizantina
    Hino "acatistos" à Mãe de Deus (séc. VII)

    "Eu te saúdo, ó cheia de graça!"

    Do céu foi enviado um arcanjo eminente para dizer à Mãe de Deus: "Alegra-te!"
    Mas quando te viu, ó Senhora, a sua voz ganhou corpo e ele gritou a sua surpresa e o seu encantamento:

    "Alegra-te: em ti brilha a alegria da salvação.
    Alegra-te: por ti o mal desapareceu.
    Alegra-te, porque ergues Adão da sua queda.
    Alegra-te, porque Eva também já não chora.
    Alegra-te, montanha inacessível aos pensamentos dos homens.
    Alegra-te, abismo insondável aos próprios anjos.
    Alegra-te, porque te tornas o trono e o palácio do Rei.
    Alegra-te: tu levas em ti Aquele que tudo pode.
    Alegra-te, estrela que anuncias o nascer do Sol.
    Alegra-te, porque em teu seio Deus tomou a nossa carne.
    Alegra-te: por ti, toda a criação é renovada.
    Alegra-te: por ti, o Criador fez-se menino.
    Alegra-te, Esposa que não foste desposada."

    A Puríssima, conhecendo o seu estado virginal, respondeu confiadamente ao anjo Gabriel: "Que estranha maravilha essa que dizes! Ela parece incompreensível à minha alma; como conceberei sem semente para engravidar, como tu está a dizer?" Aleluia, aleluia, aleluia!
    Para compreender este mistério desconhecido, a Virgem dirige-se ao servo de Deus e pergunta-lhe como é que um Filho poderia ser concebido nas suas castas entranhas.

    Cheio de respeito, o anjo aclama-a:

    "Alegra-te: a ti Deus revela os seus desígnios inefáveis.
    Alegra-te, confiança dos que rezam em silêncio.
    Alegra-te: tu és a primeira das maravilhas de Cristo.
    Alegra-te: em ti são recapituladas as doutrinas divinas.
    Alegra-te, escada pela qual Deus desce do Céu.
    Alegra-te, ponte que nos conduz da terra ao Céu.
    Alegra-te, inesgotável admiração dos anjos.
    Alegra-te, ferida incurável para os demónios.
    Alegra-te: tu geras a luz de forma inexprimível.
    Alegra-te: tu não revelas o segredo a ninguém.
    Alegra-te: tu ultrapassas a sabedoria dos sábios.
    Alegra-te: tu iluminas a inteligência dos crentes.
    Alegra-te, Esposa que não foste desposada."

    O poder do Altíssimo cobriu então com a sua sombra a Virgem que não tinha sido desposada, para a levar a conceber. E o seu seio fecundado tornou-se um jardim de delícias para os que nele querem colher a salvação, cantando: "Aleluia, aleluia, aleluia!"

    "ESTE É O DIA QUE O SENHOR FEZ PARA NÓS, ALEGREMO-NOS E NELE EXULTEMOS"

    Domingo, dia 30 de Março de 2008

    2º domingo do tempo pascal (semana II do saltério) ,   S. João Clímaco, religioso, +615 ,   S. Leonardo Murialdo, confessor, +1900

    Livro dos Actos dos Apóstolos 2,42-47.

    Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações.
    Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, o temor dominava todos os espíritos.
    Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum.
    Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.
    Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração.
    Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação.

    Livro de Salmos 118(117),2-4.13-15.22-24.

    Diga a casa de Israel: «O seu amor é eterno.»
    Diga a casa de Aarão: «O seu amor é eterno.»
    Digam os que crêem no SENHOR: «O seu amor é eterno.»

    Empurraram-me com violência para eu cair, mas o SENHOR veio em meu auxílio.
    SENHOR é o meu refúgio e a minha força; Ele é a minha salvação.

    Ouvem-se vozes de alegria e de vitória nas tendas dos justos: «A mão do SENHOR fez maravilhas, pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular.

    Isto foi obra do SENHOR e é um prodígio aos nossos olhos.
    Este é o dia da vitória do SENHOR: cantemos e alegremo-nos nele!

    1ª Carta de S. Pedro 1,3-9.

    Bendito seja Deus, Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo, que na sua grande misericórdia nos gerou de novo – através da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos – para uma esperança viva,
    para uma herança incorruptível, imaculada e indefectível, reservada no Céu para vós,
    a quem o poder de Deus guarda, pela fé, até alcançardes a salvação que está pronta para se manifestar no momento final.
    É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações;
    deste modo, a qualidade genuína da vossa fé – muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo – será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo.
    Sem o terdes visto, vós o amais; sem o ver ainda, credes nele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante,
    alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas.

    Evangelho segundo S. João 20,19-31.

    Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!»
    Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor.
    E Ele voltou a dizer-lhes: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.»
    Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo.
    Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos.»

    Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gémeo, não estava com eles quando Jesus veio.
    Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.»
    Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!»
    Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.»

    Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!»
    Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto».
    Muitos outros sinais miraculosos realizou ainda Jesus, na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro.
    Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e, acreditando, terdes a vida nele.

    Comentário ao Santo Evangelho: Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África) e doutor da Igreja
    Sermão 258

    «E Deus disse: 'Faça-se a luz'» (Gn 1,3)

    «Este é o dia que o Senhor fez» (Sl 117,24). Lembrai-vos do estado do mundo no princípio: «As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Deus disse: 'Faça-se a luz'. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas noite» (Gn 1,2s) ... »Este é o dia que o Senhor fez». É o dia de que fala o apóstolo Paulo: «Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor» (Ef 5,8) ...

    Não era Tomé um homem, um dos discípulos, um homem da multidão, por assim dizer? Os seus irmãos disseram-lhe: «Vimos o Senhor». E ele: «Se eu não tocar, se não meter o meu dedo no seu lado, não acreditarei». Os evangelistas trazem-te a novidade, e tu não acreditas? O mundo acreditou e um discípulo não acreditou?... Ainda não tinha chegado esse dia que o Senhor fez; as trevas estavam ainda sobre o abismo, nas profundezas do coração humano, que estava nas trevas.

    Que venha pois Esse que é o sinal do dia, que ele venha e que diga com paciência, com doçura, sem cólera, ele que cura: «Vem. Vem, toca aqui e acredita. Tu declaraste: 'Se não tocar, se não meter o meu dedo, não acreditarei'. Vem, toca, põe o teu dedo e não sejas incrédulo, mas crente. Eu conheço as tuas feridas, guardei para ti a minha cicatriz».

    Aproximando a sua mão, o discípulo pode plenamente completar a sua fé. Qual é, com efeito, a plenitude da fé? Não acreditar que Cristo é somente homem, não acreditar também que Cristo é somente Deus, mas acreditar que ele é homem e Deus... Assim, o discípulo ao qual o seu Salvador deu a tocar os membros do seu corpo e as suas cicatrizes exclamou: «Meu Senhor e meu Deus».

    Ele tocou o homem, reconheceu Deus. Tocou a carne, voltou-se para a Palavra, porque «a Palavra fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1,14). A Palavra suportou que a sua carne fosse suspensa na cruz...; a Palavra suportou que a sua carne fosse colocada no túmulo. A Palavra ressuscitou na sua carne, mostrou-a aos olhos dos seus discípulos, prestou-se a ser tocada pelas suas mãos. Eles tocaram, e eles exclamaram: «Meu Senhor e meu Deus!»

    Este é o Dia que o Senhor fez.

    "IDE POR TODO O MUNDO E ANUNCIAI O EVANGELHO"

    Sabado, dia 29 de Março de 2008

    Santo Eustáquio (ou Eustásio), monge, +629

    Livro dos Actos dos Apóstolos 4,13-21.

    Ao verem o desassombro de Pedro e de João e percebendo que eram homens iletrados e plebeus, ficaram espantados. Reconheciam-nos por terem andado com Jesus,
    mas, ao mesmo tempo, vendo de pé, junto deles, o homem que fora curado, nada encontraram para replicar.

    Mandaram-nos, então, sair do Sinédrio e começaram sozinhos a deliberar:
    «Que havemos de fazer a estes homens? Que um milagre notável foi realizado por eles é demasiado claro para todos os habitantes de Jerusalém e não podemos negá-lo.
    No entanto, para evitar que a notícia deste caso se espalhe ainda mais por entre o povo, proibamo-los, com ameaças, de falar, doravante, a quem quer que seja, nesse nome.»
    Chamaram-nos, então, e impuseram-lhes a proibição formal de falar ou ensinar em nome de Jesus.

    Mas Pedro e João retorquiram: «Julgai vós mesmos se é justo, diante de Deus, obedecer a vós primeiro do que a Deus.
    Quanto a nós, não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos.»
    Eles, então, com novas ameaças, mandaram-nos em liberdade, não encontrando maneira de os castigar, por causa do povo; pois todos glorificavam a Deus pelo que tinha acontecido.

    Livro de Salmos 118,1.14-15.16-18.19-21.

    Louvai o SENHOR, porque Ele é bom, porque o seu amor é eterno.

    SENHOR é o meu refúgio e a minha força; Ele é a minha salvação.
    Ouvem-se vozes de alegria e de vitória nas tendas dos justos: «A mão do SENHOR fez maravilhas, mão do SENHOR foi magnífica; a mão do SENHOR fez maravilhas.»

    Não morrerei, antes viverei, para narrar as obras do SENHOR.
    SENHOR castigou-me com dureza, mas não me deixou morrer.

    Abri-me as portas da justiça: quero entrar para dar graças ao SENHOR.
    Esta é a porta do SENHOR: os justos entrarão por ela.
    Eu te darei graças, porque me respondeste, porque foste o meu salvador.

    Evangelho segundo S. Marcos 16,9-15.

    Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiramente a Maria de Magdala, da qual expulsara sete demónios.
    Ela foi anunciá-lo aos que tinham sido seus companheiros, que viviam em luto e em pranto.
    Mas eles, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não acreditaram.
    Depois disto, Jesus apareceu com um aspecto diferente a dois deles que iam a caminho do campo.

    Eles voltaram para trás a fim de o anunciar aos restantes. E também não acreditaram neles.
    Apareceu, finalmente, aos próprios Onze quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração em não acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado.
    E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura.

    S. Leão Magno (? – cerca 461), papa e doutor da Igreja
    Sermão 58, o vigésimo sobre a Paixão

    «Os que tinham sido seus companheiros estavam no luto e em lágrimas… Ele disse-lhes: ‘Ide por todo o mundo anunciar a Boa Nova’»

    Não estejamos presos às coisas deste mundo; que os bens da terra não desviem o nosso olhar do céu. Tomemos por passado o que já não é praticamente nada; que o nosso espírito, agarrado ao que deve viver, fixe o seu desejo nas promessas de eternidade. Embora sejamos ainda “salvos na esperança” (Rom 8,24), embora possuamos ainda uma carne sujeita á corrupção e à morte, podemos com certeza afirmar que podemos no entanto viver fora da carne, se escaparmos à influência das suas paixões. Não, nós não merecemos mais o nome desta carne da qual nós fizemos por calar os apelos…

    Que o povo de Deus tome portanto consciência que ele é «uma criatura nova em Cristo» (2Cor 5,17). Que compreenda bem quem o escolheu, e quem ele próprio escolheu. Que o novo ser não retorne á inconstância do seu estado velho. Que «aquele que pôs a mão no arado» (Lc 9,62) não cesse de trabalhar, que vele pelo grão que semeou, que não retorne ao passado que abandonou. Que ninguém volte a cair na degradação da qual se separou.

    E se, porque a carne é fraca, alguém sofre ainda de uma das suas doenças, que tome a firme resolução de se curar e de se engrandecer. Esta é a via da salvação; esta é a forma de imitar a ressurreição começada em Cristo… Que os nossos passos deixem as areias movediças para caminhar sobre a terra firme, porque está escrito: «O Senhor firma os passos do homem e compraz-se nos seus caminhos. Mesmo que caia, não ficará por terra, porque o Senhor lhe estenderá a mão» (Sl 36,23s).

    Irmãos bem amados, guardai bem estas reflexões no vosso espírito, não apenas para celebrar as festas da Páscoa, mas para santificar toda a vossa vida.

    "TRAZEI DOS PEIXES QUE APANHASTES AGORA"

    Sexta-feira, dia 28 de Março de 2008

    Santa Gisela, rainha, abadessa, +1065

    Livro dos Actos dos Apóstolos 4,1-12.

    Estando eles a falar ao povo, surgiram os sacerdotes, o comandante do templo e os saduceus,
    irritados por vê-los a ensinar o povo e a anunciar, na pessoa de Jesus, a ressurreição dos mortos.
    Deitaram-lhes as mãos e prenderam-nos até ao dia seguinte, pois já era tarde.
    No entanto, muitos dos que tinham ouvido a Palavra abraçaram a fé, e o número dos crentes elevou-se a cerca de cinco mil.
    No dia seguinte, os chefes dos judeus, os anciãos e os escribas reuniram-se em Jerusalém
    com o Sumo Sacerdote Anás, e ainda Caifás, João, Alexandre e todos os membros das famílias dos sumos sacerdotes.
    Mandaram comparecer os Apóstolos diante deles e perguntaram-lhes: «Com que poder ou em nome de quem fizestes isso?»
    Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: «Chefes do povo e anciãos,
    já que hoje somos interrogados sobre um benefício feito a um enfermo e sobre o modo como ele foi curado, ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: É em nome de Jesus Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se apresenta curado diante de vós.

    Ele é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular.
    E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar.»

    Livro de Salmos 118(117),1-2.4.22-24.25-27.

    Louvai o SENHOR, porque Ele é bom, porque o seu amor é eterno.

    Diga a casa de Israel: «O seu amor é eterno.»
    Digam os que crêem no SENHOR: «O seu amor é eterno.»

    Pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular.
    Isto foi obra do SENHOR e é um prodígio aos nossos olhos.

    Este é o dia da vitória do SENHOR: cantemos e alegremo-nos nele!
    SENHOR, salva-nos! SENHOR, dá-nos a vitória!

    Bendito o que vem em nome do SENHOR! Da casa do SENHOR nós vos abençoamos.
    SENHOR é Deus; Ele tem-nos iluminado! Entrançai as ramagens de festa até às hastes do altar.

    Evangelho segundo S. João 21,1-14.

    Algum tempo depois, Jesus apareceu outra vez aos discípulos, junto ao lago de Tiberíades, e manifestou-se deste modo:
    estavam juntos Simão Pedro, Tomé, a quem chamavam o Gémeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos.
    Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar.» Eles responderam-lhe: «Nós também vamos contigo.» Saíram e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada.
    Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele.
    Jesus disse-lhes, então: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-lhe: «Não.»
    Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar.

    Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou a capa, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água.
    Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros.
    Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão.
    Jesus disse-lhes: «Trazei dos peixes que apanhastes agora.»

    Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu.
    Disse-lhes Jesus: «Vinde almoçar.» E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-lhe: «Quem és Tu?», porque bem sabiam que era o Senhor.
    Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe.
    Esta já foi a terceira vez que Jesus apareceu aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.

    Liturgia latina
    Hino de Vésperas da Oitava de Páscoa: Ad Coenam Agni providi

    “Ao nascer do dia, Jesus estava de pé na margem”

    Convidados para as núpcias do Cordeiro (Ap 19,9),
    Revestidos de uma veste de luz,
    Atravessámos as águas do Mar Vermelho (Ex 14)
    Cantemos a Cristo, que nos abre o caminho.

    A Ele, cujo Corpo vestido de glória
    Se imolou no altar da cruz,
    A Ele que derramou o Seu sangue pela vida do mundo.
    Ao bebê-lo, vivemos no Seu amor.

    Protegidos na noite desta Páscoa
    Contra os golpes do Anjo Exterminador (Ex 12, 13),
    Ele arrancou-nos a todos à servidão
    E as águas abriram-se sob os nossos passos.

    Hoje, a nossa Páscoa é Cristo (1 Cor 5, 7),
    Ele é o Cordeiro imolado pelos nossos pecados,
    Ele deu-nos a Sua carne como alimento,
    O pão puríssimo, o ázimo sincero.

    Ele é a vítima verdadeiramente digna
    Pela qual foi o inferno aniquilado,
    Ele liberta a terra inteira outrora cativa,
    Voltando a dar-lhe os bens da vida.

    Jesus Cristo ergue-Se do túmulo,
    Regressa vencedor dos infernos
    Acorrenta os tiranos, dissipa as trevas
    E abre-nos as portas do céu.

    Glória a Ti, Cristo, nosso Salvador,
    A Ti, que hoje triunfas de entre os mortos,
    Glória ao Pai e ao Espírito que nos ilumina,
    A Vós que reinais pelos séculos sem fim. Ámen, Aleluia!

    "A PAZ ESTEJA CONVOSCO"

    Quinta-feira, dia 27 de Março de 2008

    S. João Damasceno, presbítero, Doutor da Igreja, +749

    Livro dos Actos dos Apóstolos 3,11-26.

    E, como ele não deixasse Pedro e João, todo o povo, cheio de assombro, se juntou a eles sob o chamado pórtico de Salomão.
    Ao ver isto, Pedro dirigiu a palavra ao povo: «Homens de Israel, porque vos admirais com isto? Porque nos olhais, como se tivéssemos feito andar este homem por nosso próprio poder ou piedade,?
    O Deus de Abraão, de Isaac e Jacob, o Deus dos nossos pais, glorificou o seu servo Jesus, que vós entregastes e negastes na presença de Pilatos, estando ele resolvido a libertá-lo.

    Negastes o Santo e o Justo e pedistes a libertação de um assassino.
    Destes a morte ao Príncipe da Vida, mas Deus ressuscitou-o dos mortos, e disso nós somos testemunhas.
    Pela fé no seu nome, este homem, que vedes e conheceis, recobrou as forças. Foi a fé que dele nos vem que curou completamente este homem na vossa presença.
    Agora, irmãos, sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes.
    Dessa forma, Deus cumpriu o que antecipadamente anunciara pela boca de todos os profetas: que o seu Messias havia de padecer.
    Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam apagados;
    e, assim, o Senhor vos conceda os tempos de conforto, quando Ele enviar aquele que vos foi destinado, o Messias Jesus,
    que deve permanecer no Céu até ao momento da restauração de todas as coisas, de que Deus falou outrora pela boca dos seus santos profetas.
    Moisés disse: ‘O Senhor Deus suscitar-vos-á um Profeta como eu, de entre os vossos irmãos. Escutá-lo-eis em tudo quanto vos disser.
    Quem não escutar esse Profeta, será exterminado do meio do povo.’
    E, por outro lado, todos os profetas que falaram desde Samuel anunciaram igualmente estes dias.

    Vós sois os filhos dos profetas e da aliança que Deus concluiu com os vossos pais, quando disse a Abraão: ‘Na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da Terra.’
    Foi primeiramente para vós que Deus suscitou o seu Servo e o enviou para vos abençoar e para se afastar cada um de vós das suas más acções.»

    Livro de Salmos 8,2.5.6-7.8-9.

    SENHOR, nosso Deus, como é admirável o teu nome em toda a terra! Adorarei a tua majestade, mais alta que os céus.
    que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares?
    Quase fizeste dele um ser divino; de glória e de honra o coroaste.
    Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos, tudo submeteste a seus pés:
    rebanhos e gado, sem excepção, e até mesmo os animais bravios;
    as aves do céu e os peixes do mar, tudo o que percorre os caminhos do oceano.

    Evangelho segundo S. Lucas 24,35-48.

    E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.
    Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!»
    Dominados pelo espanto e cheios de temor, julgavam ver um espírito.
    Disse-lhes, então: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações?

    Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho.»
    Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.
    E como, na sua alegria, não queriam acreditar de assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa que se coma?»
    Deram-lhe um bocado de peixe assado;
    e, tomando-o, comeu diante deles.
    Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos.»

    Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras
    e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia;
    que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém.
    Vós sois as testemunhas destas coisas.

    Cardeal John Henry Newman (1801-1890), sacerdote, fundador de comunidade religiosa, teólogo
    Sermões sobre os temas do dia

    “A paz esteja convosco”

    O coração de cada cristão deve representar a Igreja Católica, dado que o próprio Espírito faz de toda a Igreja, e de cada um dos seus membros, Templo de Deus (1 Co 3, 16). Assim como opera a unidade na Igreja que, entregue a si própria, se dividiria em numerosas parcelas, assim também torna una a alma, apesar dos seus diversos gostos e das suas faculdades, das suas tendências contraditórias. Assim como dá a paz à multiplicidade das nações, que estão, por natureza, em discórdia umas com as outras, assim também submete a alma a uma gestão ordenada, estabelecendo a razão e a consciência como soberanas sobre os aspectos inferiores da nossa natureza. […]

    E tenhamos a certeza de que estas duas operações do nosso divino Consolador dependem uma da outra. Enquanto os cristãos não procurarem a unidade e a paz interiores no seu próprio coração, nunca a Igreja viverá em paz e unidade no seio deste mundo que a rodeia. E, de forma bastante semelhante, enquanto a Igreja se encontrar, por todo o mundo, no lamentável estado de desordem que constatamos, não haverá nenhum país específico – parte simples desta Igreja – que não se encontre necessariamente num estado de grande confusão religiosa.

    É algo em que faremos bem em meditar na hora presente, porque nos equilibrará as esperanças e nos dissipará as ilusões; não podemos esperar ter paz em nós se estivermos em guerra fora de nós.

    O PRIMEIRO DIA DA VIDA NOVA

    Domingo, dia 23 de Março de 2008

    Domingo de Páscoa (ofício próprio) ,   S. Turíbio de Mogrovejo, bispo, +1606

    Livro dos Actos dos Apóstolos 10,34.37-43.

    Então, Pedro tomou a palavra e disse: «Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas,
    Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou:
    como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele.

    E nós somos testemunhas do que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. A Ele, que mataram, suspendendo-o de um madeiro, Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia, e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos.
    E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos.
    É dele que todos os profetas dão testemunho: quem acredita nele recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados.»

    Livro de Salmos 118(117),1-2.16-17.22-23.

    Louvai o SENHOR, porque Ele é bom, porque o seu amor é eterno.

    Diga a casa de Israel: «O seu amor é eterno.»
    mão do SENHOR foi magnífica; a mão do SENHOR fez maravilhas.»

    Não morrerei, antes viverei, para narrar as obras do SENHOR.
    pedra que os construtores rejeitaram veio a tornar-se pedra angular.
    Isto foi obra do SENHOR e é um prodígio aos nossos olhos.

    Carta aos Colossenses 3,1-4.

    Portanto, já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus.
    Aspirai às coisas do alto e não às coisas da terra.
    Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
    Quando Cristo, a vossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória.

    Evangelho segundo S. João 20,1-9.

    No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava.
    Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.»
    Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo.
    Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo.
    Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou.

    Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão,
    ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição.
    Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer,
    pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

    Comentário ao Santo Evangelho: S. Gregório de Nissa (c. de 335-395), monge e bispo
    Homilia para a santa e salutar Páscoa

    O primeiro dia da vida nova

    Eis uma máxima sábia: "No dia da felicidade, esquecemos todos os males" (Si 11,25). Hoje foi esquecida a sentença lançada sobre nós, melhor, não foi esquecida mas anulada! Este dia apagou completamente qualquer lembrança da nossa condenação. Outrora, o parto passava-se na dor; agora, o nosso nascimento é sem sofrimento. Outrora não éramos senão carne, nascíamos da carne; hoje o que nasce é espírito, nascido do Espírito. Ontem, nascíamos simples filhos dos homens; hoje nascemos filhos de Deus. Ontem, éramos os rejeitados dos céus sobre a terra; hoje, Aquele que reina nos céus faz de nós cidadãos do céu. Ontem a morte reinava por causa do pecado; hoje, graças à Vida, é a justiça quem toma o poder.

    Um único homem abriu-nos outrora as portas da morte; hoje, um único homem traz-nos de novo à vida. Ontem, perdemos a vida por causa da morte; mas hoje a Vida destruiu a morte. Ontem, a vergonha fazia-nos esconder debaixo da figueira; hoje, a glória atrai-nos para a árvore de vida. Ontem, a desobediência tinha-nos expulsado do Paraíso; hoje, a nossa fé faz-nos entrar nele. De novo nos é oferecido o fruto da vida para que o saboreemos tanto quanto quisermos. De novo a nascente do Paraíso, cuja água nos irriga pelos quatro rios dos evangelhos (cf Gn 2,10), vem refrescar todo o rosto da Igreja...

    Que devemos fazer agora, senão imitar, nos seus saltos jubilosos, as montanhas e as colinas das profecias: "Montanhas, saltai como carneiros; e vós, colinas, como cordeiros!" (Sl 113,4) Vinde, pois, gritemos de alegria no Senhor! (Sl 94,1) Ele quebrou o poder do inimigo e ergueu o grande troféu da cruz... Digamos, pois: "Grande é o Senhor nosso Deus, um grande rei em toda a terra!" (Sl 94,3; 46,3) Ele abençoa o ano coroando-o com os seus benefícios (Sl 64,12) e reune-nos num coro espiritual, em Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertence a glória pelos séculos dos séculos. Amen!

    "Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado; não está aqui, pois ressuscitou, como tinha dito"

    Sabado, dia 22 de Março de 2008

    Sábado Santo - Vigília Pascal ,   Santa Catarina de Génova, viúva, +1510

    Livro de Êxodo 14,15-31.15,1.

    O Senhor disse a Moisés: «Porque clamas por mim? Fala aos filhos de Israel e manda-os partir.
    E tu, levanta a tua vara e estende a mão sobre o mar e divide-o, e que os filhos de Israel entrem pelo meio do mar, por terra seca.
    E eis que Eu vou endurecer o coração dos egípcios para que venham atrás deles, e serei glorificado por meio do faraó e de todo o seu exército, dos seus carros de guerra e dos seus cavaleiros,
    e os egípcios saberão que Eu sou o Senhor, quando for glorificado por meio do faraó, dos seus carros de guerra e dos seus cavaleiros.»

    O anjo de Deus, que caminhava à frente do acampamento de Israel, levantou-se, partiu e passou a caminhar atrás deles. E a coluna de nuvem levantou-se de diante deles e colocou-se atrás deles.
    Veio colocar-se entre o acampamento do Egipto e o acampamento de Israel. E houve nuvens e trevas, e iluminou-se a noite, e não se aproximaram um do outro toda a noite.
    Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e o Senhor fez recuar o mar com um vento forte de oriente toda a noite, e pôs o mar a seco. As águas dividiram-se,
    e os filhos de Israel entraram pelo meio do mar, por terra seca, e as águas eram para eles um muro à sua direita e à sua esquerda.

    Os egípcios perseguiram-nos, e todos os cavalos do faraó, os seus carros de guerra e os seus cavaleiros, entraram atrás deles para o meio do mar.
    E aconteceu que, na vigília da manhã, o Senhor olhou da coluna de fogo e de nuvem, para o acampamento dos egípcios, e lançou a confusão no acampamento dos egípcios.
    Ele desviou as rodas dos seus carros de guerra, e eles conduziam com dificuldade. Os egípcios disseram: «Fujamos diante de Israel, porque o Senhor combate por eles contra o Egipto.»
    O Senhor disse a Moisés: «Estende a tua mão sobre o mar, e que as águas voltem sobre os egípcios, sobre os seus carros de guerra e sobre os seus cavaleiros.»
    Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e o mar voltou ao seu leito normal, ao raiar da manhã, e os egípcios a fugir foram ao seu encontro. E o Senhor desfez-se dos egípcios no meio do mar.

    As águas voltaram e cobriram os carros de guerra e os cavaleiros; de todo o exército do faraó que entrou atrás deles no mar, não ficou nenhum.
    Os filhos de Israel caminharam em terra seca, pelo meio do mar, e as águas eram para eles um muro à sua direita e à sua esquerda.
    O Senhor salvou, naquele dia, Israel da mão do Egipto, e Israel viu os egípcios mortos à beira do mar.
    Israel viu a mão poderosa com que o Senhor actuou contra o Egipto, o povo temeu o Senhor e acreditou nele e em Moisés, seu servo.
    Então, Moisés cantou, e os filhos de Israel também, este cântico ao Senhor. Eles disseram: «Cantarei ao Senhor que é verdadeiramente grande: cavalo e cavaleiro lançou no mar.

    Ex. 15,2-6.10.11.17.

    Minha força e meu canto é o Senhor: Ele foi para mim a salvação. É este o meu Deus: glorificá-lo-ei; o Deus de meu pai: exaltá-lo-ei.
    O Senhor é um guerreiro: Senhor é o seu nome.
    Os carros de guerra do faraó e o seu exército Ele atirou ao mar; e os seus combatentes escolhidos foram afundados no Mar dos Juncos.

    Cobrem-nos os abismos: desceram às profundezas como uma pedra.
    A tua direita, Senhor, resplandeceu de força; a tua direita, Senhor, apanhou o inimigo.
    Sopraste com o teu vento, e o mar os recobriu. Afundaram-se como chumbo nas águas alterosas.
    Quem como Tu, entre os deuses, Senhor? Quem como Tu, enaltecido de santidade, temível de glória, fazendo maravilhas?
    Fá- -lo-ás entrar e plantá-lo-ás na montanha que é a tua herança, lugar que fizeste para Tu habitares, Senhor, santuário que as tuas mãos, Senhor, estabeleceram.

    Carta aos Romanos 6,3-11.

    Ou ignorais que todos nós, que fomos baptizados em Cristo Jesus, fomos baptizados na sua morte?
    Pelo Baptismo fomos, pois, sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova.
    De facto, se estamos integrados nele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição.
    É isto o que devemos saber: o homem velho que havia em nós foi crucificado com Ele, para que fosse destruído o corpo pertencente ao pecado; e assim não somos mais escravos do pecado.

    É que quem está morto está justificado do pecado.
    Mas, se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos.
    Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morrerá; a morte não tem mais domínio sobre Ele.
    Pois, na morte que teve, morreu para o pecado de uma vez para sempre; e, na vida que tem, vive para Deus.
    Assim vós também: considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.

    Evangelho segundo S. Mateus 28,1-10

    Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro.
    Nisto, houve um grande terramoto: o anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela.

    O seu aspecto era como o de um relâmpago; e a sua túnica, branca como a neve.
    Os guardas, com medo dele, puseram-se a tremer e ficaram como mortos.
    Mas o anjo tomou a palavra e disse às mulheres: «Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado;
    não está aqui, pois ressuscitou, como tinha dito. Vinde, vede o lugar onde jazia
    e ide depressa dizer aos seus discípulos: 'Ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis.’ Eis o que tinha para vos dizer.»

    Afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e de grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos.
    Jesus saiu ao seu encontro e disse-lhes: «Salve!» Elas aproximaram-se, estreitaram-lhe os pés e prostraram-se diante dele.
    Jesus disse-lhes: «Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão.»

    Comentário ao Evangelho do dia: Santo Hesíquio (?-c. 451), monge, presbítero
    I Homilia para a Páscoa

    “Esta é a noite em que Cristo, quebrando as cadeias da morte, Se levanta vitorioso do túmulo”

    O céu brilha quando é iluminado pelo coro das estrelas, e o universo brilha ainda mais quando se ergue a estrela da manhã. Mas esta noite resplandece, não tanto com o brilho dos astros, mas de alegria perante a vitória do nosso Deus e Salvador: “Tende confiança! Eu venci o mundo”, diz Ele (Jo 16, 3). Depois desta vitória de Deus sobre o inimigo invisível, também nós obteremos certamente a vitória sobre os demónios.

    Permaneçamos, pois, junto da cruz da nossa salvação, a fim de colhermos os primeiros frutos dos dons de Jesus. Celebremos esta noite santa com chamas sagradas; façamos erguer a música divina, cantemos um hino celeste. O “Sol da justiça” (Mal 3, 20), Nosso Senhor Jesus Cristo, iluminou este dia para todo o mundo, erguendo-Se por meio da cruz e salvando os crentes. […]

    A nossa assembleia, meus irmãos, é uma festa de vitória, a vitória do Rei do Universo, Filho de Deus. Hoje, o demónio foi destruído pelo Crucificado, e a humanidade encheu-se de alegria pelo Ressuscitado. […] Exclama este dia: “Hoje, vi o Rei do Céu, cingido de luz, subir acima do brilho e de toda a claridade, acima do sol e das águas, acima das nuvens.” […] Ele esteve oculto, primeiro no seio de uma mulher, depois no seio da terra, primeiro santificando aqueles que são gerados, em seguida concedendo a vida pela Sua ressurreição àqueles que morreram, porque “deles fugirão a tristeza e os gemidos” (Is 35, 10). […]

    Hoje, o paraíso foi aberto pelo Ressuscitado, Adão voltou à vida, Eva foi consolada, o chamamento foi ouvido, o Reino está preparado, o homem foi salvo, Cristo é adorado. Ele esmagou a morte a Seus pés, aprisionou esse tirano, desbaratou a mansão dos mortos. Ele sobe aos céus, vitorioso como um rei, glorioso como um chefe […], e diz a Seu Pai: “Eis-Me aqui, e os filhos que Me deu o Senhor” (Heb 2, 13). Glória a Ele, agora e pelos séculos dos séculos.

    PAI, EM TUAS MÃOS ENTREGO O MEU ESPÍRITO!

    Sexta-feira, dia 21 de Março de 2008

    Sexta-feira santa ,   S. Nicolau de Flue, eremita, confessor, +1487

    Livro de Isaías 52,13-15.53,1-12.

    Olhai, o meu servo terá êxito, será muito engrandecido e exaltado.
    Assim como muitos ficaram espantados diante dele, ao verem o seu rosto desfigurado e o seu aspecto disforme,
    agora fará com que muitos povos fiquem bem impressionados. Os reis ficarão boqueabertos, ao verem coisas inenarráveis, e ao contemplarem coisas inauditas.
    Quem acreditou no nosso anúncio? A quem foi revelado o braço do SENHOR?
    O servo cresceu diante do SENHOR como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente, desprezado e abandonado pelos homens, como alguém cheio de dores, habituado ao sofrimento, diante do qual se tapa o rosto, menosprezado e desconsiderado.

    Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. Nós o reputávamos como um leproso, ferido por Deus e humilhado.
    Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas.
    Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o SENHOR carregou sobre ele todos os nossos crimes.
    Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador.
    Sem defesa, nem justiça, levaram-no à força. Quem é que se preocupou com o seu destino? Foi suprimido da terra dos vivos, mas por causa dos pecados do meu povo é que foi ferido.

    Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude.
    Mas aprouve ao SENHOR esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do SENHOR realizar-se-á por meio dele.
    Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz. O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. Ele, o justo, justificará a muitos, porque carregou com o crime deles.
    Por isso, ser-lhe-á dada uma multidão como herança, há-de receber muita gente como despojos, porque ele próprio entregou a sua vida à morte, e foi contado entre os pecadores, tomando sobre si os pecados de muitos, e sofreu pelos culpados.

    Livro de Salmos 31,2.6.12-13.15-16.17.25.

    Em ti, SENHOR, me refugio; que eu nunca seja confundido. Salva-me pela tua justiça.

    Nas tuas mãos entrego o meu espírito; SENHOR, Deus fiel, salva-me.
    Tornei-me objecto de escárnio para os meus inimigos, de desprezo para os meus vizinhos e de terror para os meus conhecidos.
    Os que me vêem na rua fogem de mim.

    Votaram-me ao esquecimento como se tivesse morrido; sou como um vaso desfeito.
    Mas eu confio em ti, SENHOR; e digo: «Tu és o meu Deus.
    Meu destino está nas tuas mãos; livra-me dos meus inimigos e perseguidores.

    Brilhe sobre o teu servo a luz da tua face; salva-me pela tua misericórdia.»
    Tende coragem e fortalecei o vosso coração, todos vós, que esperais no SENHOR!

    Carta aos Hebreus 4,14-16.5,7-9.

    Uma vez que temos um grande Sumo Sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus, conservemos firme a fé que professamos.
    De facto, não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, excepto no pecado.
    Aproximemo-nos, então, com grande confiança, do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça para uma ajuda oportuna.
    Nos dias da sua vida terrena, apresentou orações e súplicas àquele que o podia salvar da morte, com grande clamor e lágrimas, e foi atendido por causa da sua piedade.
    Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obediência por aquilo que sofreu
    e, tornado perfeito, tornou-se para todos os que lhe obedecem fonte de salvação eterna,

    Evangelho segundo S. João 18,1-40.19,1-42.

    Tendo dito estas coisas, Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cédron, onde havia um horto, e ali entrou com os seus discípulos.
    Judas, aquele que o ia entregar, conhecia bem o sítio, porque Jesus se reunia ali frequentemente com os discípulos.
    Judas, então, guiando o destacamento romano e os guardas ao serviço dos sumos sacerdotes e dos fariseus, munidos de lanternas, archotes e armas, entrou lá.
    Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, adiantou-se e disse-lhes: «Quem buscais?»
    Responderam-lhe: «Jesus, o Nazareno.» Disse-lhes Ele: «Sou Eu!» E Judas, aquele que o ia entregar, também estava junto deles.
    Logo que Jesus lhes disse: 'Sou Eu!', recuaram e caíram por terra.
    E perguntou-lhes segunda vez: «Quem buscais?» Disseram-lhe: «Jesus, o Nazareno!»
    Jesus replicou-lhes: «Já vos disse que sou Eu. Se é a mim que buscais, então deixai estes ir embora.»

    Assim se cumpria o que dissera antes: 'Dos que me deste, não perdi nenhum.'
    Nessa altura, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco.
    Mas Jesus disse a Pedro: «Mete a espada na bainha. Não hei-de beber o cálice de amargura que o Pai me ofereceu?»
    Então, o destacamento, o comandante e os guardas das autoridades judaicas prenderam Jesus e manietaram-no.
    E levaram-no primeiro a Anás, porque era sogro de Caifás, o Sumo Sacerdote naquele ano.
    Caifás era quem tinha dado aos judeus este conselho: 'Convém que morra um só homem pelo povo'.
    Entretanto, Simão Pedro e outro discípulo foram seguindo Jesus. Esse outro discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e pôde entrar no seu palácio ao mesmo tempo que Jesus.
    Mas Pedro ficou à porta, de fora. Saiu, então, o outro discípulo que era conhecido do Sumo Sacerdote, falou com a porteira e levou Pedro para dentro.
    Disse-lhe a porteira: «Tu não és um dos discípulos desse homem?» Ele respondeu: «Não sou.»
    Lá dentro estavam os servos e os guardas, de pé, aquecendo-se à volta de um braseiro que tinham acendido, porque fazia frio. Pedro ficou no meio deles, aquecendo-se também.
    Então, o Sumo Sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.
    Jesus respondeu-lhe: «Eu tenho falado abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo.
    Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que Eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.»
    Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: «É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?»
    Jesus replicou: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?»

    Então, Anás mandou-o manietado ao Sumo Sacerdote Caifás.
    Entretanto, Simão Pedro estava de pé a aquecer-se. Disseram-lhe, então: «Não és tu também um dos seus discípulos?» Ele negou, dizendo: «Não sou.»
    Mas um dos servos do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe: «Não te vi eu no horto com Ele?»
    Pedro negou Jesus de novo; e nesse instante cantou um galo.
    De Caifás, levaram Jesus à sede do governador romano. Era de manhã cedo e eles não entraram no edifício para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa.
    Pilatos veio ter com eles cá fora e perguntou-lhes: «Que acusações apresentais contra este homem?»

    Responderam-lhe: «Se Ele não fosse um malfeitor, não to entregaríamos.»
    Retorquiu-lhes Pilatos: «Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa Lei.» «Não nos é permitido dar a morte a ninguém», disseram-lhe os judeus,
    em cumprimento do que Jesus tinha dito, quando explicou de que espécie de morte havia de morrer.
    Pilatos entrou de novo no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?»
    Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?»
    Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?»
    Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.»

    Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.»
    Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» Dito isto, foi ter de novo com os judeus e disse-lhes: «Não vejo nele nenhum crime.
    Mas é costume eu libertar-vos um preso na Páscoa. Quereis que vos solte o rei dos judeus?»
    Eles puseram-se de novo a gritar, dizendo: «Esse não, mas sim Barrabás!» Ora Barrabás era um salteador.
    Então, Pilatos mandou levar Jesus e flagelá-lo.
    Depois, os soldados entrelaçaram uma coroa de espinhos, cravaram-lha na cabeça e cobriram-no com um manto de púrpura;
    e, aproximando-se dele, diziam-lhe: «Salve! Ó Rei dos judeus!» E davam-lhe bofetadas.
    Pilatos saiu de novo e disse-lhes: «Vou trazê-lo cá fora para saberdes que eu não vejo nele nenhuma causa de condenação.»
    Então, saiu Jesus com a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Disse-lhes Pilatos: «Eis o Homem!»

    Assim que viram Jesus, os sumos sacerdotes e os seus servidores gritaram: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Levai-o vós e crucificai-o. Eu não descubro nele nenhum crime.»
    Os judeus replicaram-lhe: «Nós temos uma Lei e, segundo essa Lei, deve morrer, porque disse ser Filho de Deus.»
    Quando Pilatos ouviu estas palavras, mais assustado ficou.
    Voltou a entrar no edifício da sede e perguntou a Jesus: «Donde és Tu?» Mas Jesus não lhe deu resposta.
    Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?»
    Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado.»

    A partir daí, Pilatos procurava libertá-lo, mas os judeus clamavam: «Se libertas este homem, não és amigo de César! Todo aquele que se faz rei declara-se contra César.»
    Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e fê-lo sentar numa tribuna, no lugar chamado Lajedo, ou Gabatá em hebraico.
    Era o dia da Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Disse, então, aos judeus: «Aqui está o vosso Rei!»
    E eles bradaram: «Fora! Fora! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Então, hei-de crucificar o vosso Rei?» Replicaram os sumos sacerdotes: «Não temos outro rei, senão César.»
    Então, entregou-o para ser crucificado. E eles tomaram conta de Jesus.
    Jesus, levando a cruz às costas, saiu para o chamado Lugar da Caveira, que em hebraico se diz Gólgota, onde o crucificaram, e com Ele outros dois, um de cada lado, ficando Jesus no meio.
    Pilatos redigiu um letreiro e mandou pô-lo sobre a cruz. Dizia: «Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.»
    Este letreiro foi lido por muitos judeus, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade e o letreiro estava escrito em hebraico, em latim e em grego.
    Então, os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: «Não escrevas 'Rei dos Judeus', mas sim: 'Este homem afirmou: Eu sou Rei dos Judeus.'»
    Pilatos respondeu: «O que escrevi, escrevi.»

    Os soldados, depois de terem crucificado Jesus, pegaram na roupa dele e fizeram quatro partes, uma para cada soldado, excepto a túnica. A túnica, toda tecida de uma só peça de alto a baixo, não tinha costuras.
    Então, os soldados disseram uns aos outros: «Não a rasguemos; tiremo-la à sorte, para ver a quem tocará.» Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Repartiram entre eles as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram sortes. E foi isto o que fizeram os soldados.
    Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena.
    Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!»
    Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua.
    Depois disso, Jesus, sabendo que tudo se consumara, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: «Tenho sede!»
    Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca.
    Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

    Como era o dia da Preparação da Páscoa, para evitar que no sábado ficassem os corpos na cruz, porque aquele sábado era um dia muito solene, os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados.
    Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e também ao outro que tinha sido crucificado juntamente.
    Mas, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas.
    Porém, um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água.
    Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também.
    É que isto aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: Não se lhe quebrará nenhum osso.

    E também outro passo da Escritura diz: Hão-de olhar para aquele que trespassaram.
    Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo das autoridades judaicas, pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus. E Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e retirou o corpo.
    Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Jesus de noite, apareceu também trazendo uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés.
    Tomaram então o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os perfumes, segundo o costume dos judeus.
    No sítio em que Ele tinha sido crucificado havia um horto e, no horto, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado.
    Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.

    Beato Guerric d'Igny (c. 1080-1157), abade cisterciense
    IV Sermão para os Ramos

    “Felizes os que Nele procuram abrigo” (Sl 2, 12)

    Bem-aventurado seja Aquele que, para me permitir ocultar-me “nas fendas dos rochedos” (Cant 2, 14), deixou que Lhe perfurassem as mãos, os pés e o lado. Bem-aventurado Aquele que Se abriu por completo a mim, a fim de que eu pudesse penetrar no admirável santuário (Sl 41, 5) e “abrigar-me na Sua tenda” (Sl 26, 5). Este rochedo é um refúgio […], doce lugar de repouso para as pombas, e os orifícios escancarados das chagas que tem por todo o corpo oferecem o perdão aos pecadores e concedem a graça aos justos.

    É morada segura, irmãos, “torre sólida contra o inimigo” (Sl 60, 4), habitar por meio da meditação amante e constante as chagas de Cristo Nosso Senhor, procurar na fé e no amor pelo crucificado abrigo seguro para a nossa alma, abrigo contra a veemência da carne, as trevas deste mundo, os assaltos do demónio. A protecção deste santuário sobrepõe-se a todas as vantagens deste mundo. […]

    Entra pois neste rochedo, esconde-te […], refugia-te no Crucificado. […] O que é a chaga do lado de Cristo, senão a porta aberta da arca para os que serão preservados do dilúvio? Mas a Arca de Noé era apenas um símbolo; isto é a realidade; já não se trata de salvar a vida mortal, mas de receber a imortalidade. […]

    É pois razoável que a pomba de Cristo, a sua amiga formosa (Cant 2, 13-14) […], cante hoje os Seus louvores com alegria. Da memória ou da imitação da Paixão, da meditação das Suas santas chagas, como das fendas do rochedo, a sua voz dulcíssima ressoa aos ouvidos do Esposo (Cant 2, 14).

    "SABENDO QUE SUA HORA HAVIA CHEGADO....JEUS AMOU-OS ATÉ O FIM!"

    Quinta-feira, dia 20 de Março de 2008

    Quinta-feira Santa

    Livro de Êxodo 12,1-8.11-14.

    O Senhor disse a Moisés e a Aarão na terra do Egipto:
    «Este mês será para vós o primeiro dos meses; ele será para vós o primeiro dos meses do ano.
    Falai a toda a comunidade de Israel, dizendo que, aos dez deste mês, tomará cada um deles um animal do rebanho para a família, um animal do rebanho por casa.
    Se a família for pouco numerosa para um animal do rebanho, tomar-se-á com o vizinho mais próximo da casa, segundo o número das pessoas; calculareis o animal do rebanho conforme o que cada um puder comer.

    O animal do rebanho para vós será sem defeito, um macho, filho de um ano, e tomá-lo-eis de entre os cordeiros ou de entre os cabritos.
    Vós o tereis sob guarda até ao dia catorze deste mês, e toda a assembleia da comunidade de Israel o imolará ao crepúsculo.
    Tomar-se-á do sangue e colocar-se-á sobre as duas ombreiras e sobre o dintel da porta das casas em que ele se comerá.
    Comer-se-á a carne naquela noite; comer-se-á assada no fogo com pães sem fermento e ervas amargas.

    Comê-la-eis desta maneira: os rins cingidos, as sandálias nos pés, e o cajado na mão. Comê-la-eis à pressa. É a Páscoa em honra do Senhor.
    E Eu atravessarei a terra do Egipto naquela noite, e ferirei todos os primogénitos na terra do Egipto, desde os homens até aos animais, e contra todos os deuses do Egipto farei justiça, Eu, o Senhor.

    E o sangue será para vós um sinal nas casas em que vós estais. Eu verei o sangue e passarei ao largo; e não haverá contra vós nenhuma praga de extermínio, quando Eu ferir a terra do Egipto.
    Aquele dia será para vós um memorial, e vós festejá-lo-eis como uma festa em honra do Senhor. Ao longo das vossas gerações, a deveis festejar como uma lei perpétua.

    Livro de Salmos 116(115),12-13.15-16.17-18.

    Como retribuirei ao SENHOR todos os seus benefícios para comigo?
    Elevarei o cálice da salvação, invocando o nome do SENHOR.

    Preciosa aos olhos do SENHOR é a morte dos seus fiéis.
    SENHOR, sou teu servo, filho da tua serva; quebraste as minhas cadeias.

    Hei-de oferecer-te sacrifícios de louvor, invocando, SENHOR, o teu nome.
    Cumprirei as minhas promessas feitas ao SENHOR na presença de todo o seu povo,

    1ª Carta aos Coríntios 11,23-26.

    Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus na noite em que era entregue, tomou pão
    e, tendo dado graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim».

    Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim.»
    Porque, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.

    Evangelho segundo S. João 13,1-15.

    Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tinha chegado a sua hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo.
    O diabo já tinha metido no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a decisão de o entregar.
    Enquanto celebravam a ceia, Jesus, sabendo perfeitamente que o Pai tudo lhe pusera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura.

    Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura.
    Chegou, pois, a Simão Pedro. Este disse-lhe: «Senhor, Tu é que me lavas os pés?»
    Jesus respondeu-lhe: «O que Eu estou a fazer tu não o entendes por agora, mas hás-de compreendê-lo depois.»
    Disse-lhe Pedro: «Não! Tu nunca me hás-de lavar os pés!» Replicou-lhe Jesus: «Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo.»
    Disse-lhe, então, Simão Pedro: «Ó Senhor! Não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!»

    Respondeu-lhe Jesus: «Quem tomou banho não precisa de lavar senão os pés, pois está todo limpo. E vós estais limpos, mas não todos.»
    Ele bem sabia quem o ia entregar; por isso é que lhe disse: 'Nem todos estais limpos'.
    Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me 'o Mestre' e 'o Senhor', e dizeis bem, porque o sou.
    Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.
    Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.

    Santa Catarina de Sena (1347-1380), terceira dominicana, doutora da Igreja, co-padroeira da Europa
    Carta 129

    “Sabendo que a sua hora tinha chegado…, Jesus amou-os até ao fim”

    Sede obedientes até à morte, a exemplo do Cordeiro sem mancha que obedeceu a seu Pai até à morte vergonhosa da cruz. Pensem que ele é o caminho e a regra que deveis seguir. Tende-o sempre presente diante dos olhos do vosso espírito. Vede como ele é obediente, este Verbo, a Palavra de Deus! Ele não recusa transportar o fardo das dores de que seu Pai o encarregou; pelo contrário, ele lança-se, animado de um grande desejo.

    Não é isso que ele manifesta na Ceia de quinta-feira santa quando diz: “Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa, antes de padecer” (Lc 22,15)? Por “comer a Páscoa”, ele entende o cumprimento da vontade do Pai e do seu desejo. Não vendo quase mais nenhum tempo à sua frente (ele via-se já no fim, quando devia sacrificar o seu corpo por nós), ele exulta, rejubila e diz com alegria: “ Desejei ardentemente”. Aqui está a Páscoa de que ele falava, aquela que consistia em se dar a si próprio em alimento, a imolar o seu próprio corpo para obedecer ao Pai.

    Jesus tinha celebrado muitas outras Páscoas com os discípulos, mas nunca esta, ó indizível, doce e ardente caridade! Tu não pensas nem nas tuas dores nem na tua morte ignominiosa; se tivesses pensado nisso, não terias sido tão feliz, não lhe terias chamado uma Páscoa. O Verbo viu que foi ele próprio que foi escolhido, ele próprio que recebeu por esposa a nossa humanidade. Pediram-lhe que nos desse o seu próprio sangue a fim de que a vontade do Pai se cumprisse em nós, a fim de que seja o seu sangue que nos santifica. Vede bem a doce Páscoa que aceita este cordeiro sem mancha (Ex 12, 5), e é com um grande amor e um grande desejo que ele cumpre a vontade do Pai e que observa inteiramente o seu desejo. Que doce amor indizível!...

    É por isso, meus bem-amados, que vos peço que nunca tenham medo de nada e que coloquem toda a vossa confiança no sangue de Cristo crucificado… Que qualquer temor servil seja banido do vosso espírito. Direis com S. Paulo…: Por Cristo crucificado, tudo posso, pois ele está em mim por desejo e por amor, e fortalece-me (Fil 4,13; Gal 2,20). Amai, amai, amai! Pelo seu sangue, o doce cordeiro fez da vossa alma um rochedo inabalável. 

    "O SENHOR DEUS VEM EM MEU AUXÍLIO; QUEM OUSARÁ CONDENAR-ME?"

    Quarta-feira, dia 19 de Março de 2008

    S. José, esposo da Virgem Santa Maria

    Livro de Isaías 50,4-9.

    «O Senhor DEUS ensinou-me o que devo dizer, para saber dar palavras de alento aos desanimados. Cada manhã desperta os meus ouvidos, para que eu aprenda como os discípulos.
    O Senhor DEUS abriu-me os ouvidos, e eu não resisti, nem recusei.
    Aos que me batiam apresentei as espáduas, e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam.

    Mas o Senhor DEUS veio em meu auxílio; por isso não sentia os ultrajes. Endureci o meu rosto como uma pedra, pois sabia que não ficaria envergonhado.
    O meu defensor está junto de mim. Quem ousará levantar-me um processo? Compareçamos juntos diante do juiz! Apresente-se quem tiver qualquer coisa contra mim.
    O Senhor DEUS vem em meu auxílio; quem ousará condenar-me? Cairão todos esfrangalhados, como roupa velha, roída pela traça.»

    Livro de Salmos 69(68),8-10.21-22.31.33-34.

    Por causa de ti, tenho sofrido insultos, o meu rosto cobriu-se de vergonha.
    Tornei-me um estranho para os meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe.

    O zelo da tua casa me consome; os insultos dos que te ultrajam caíram sobre mim.
    insulto despedaçou-me o coração, até desfalecer; esperei compaixão, mas foi em vão; alguém que me consolasse, mas não encontrei.

    Deram-me fel, em vez de comida, e vinagre, quando tive sede.
    Louvarei, com cânticos, o nome de Deus; hei-de glorificá-lo com acções de graças.

    Que os humildes vejam isto e se alegrem, e os que buscam a Deus se encham de coragem, porque o SENHOR escuta os necessitados e não despreza o seu povo cativo.

    Evangelho segundo S. Mateus 26,14-25.

    Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes
    e disse-lhes: «Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
    E, a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
    No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»
    Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de um certo homem e dizei-lhe: 'O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.’»

    Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa.
    Ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze.
    Enquanto comiam, disse: «Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.»
    Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: «Porventura serei eu, Senhor?»

    Ele respondeu: «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará.
    O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!»
    Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: «Porventura serei eu, Mestre?» «Tu o disseste» respondeu Jesus.

    Papa Bento XVI
    Audiência geral do dia 18/10/06 (trad. DC n° 2368 © Libreria Editrice Vaticana)

    "Um de vós vai entregar-me"

    Porque é que Judas traíu Jesus? A questão é objecto de várias hipóteses. Alguns recorrem ao factor da sua avidez de dinheiro; outros dão uma explicação de ordem messiânica: Judas teria ficado desiludido ao ver que Jesus não inseria no seu programa a libertação político-militar do seu próprio País. Na realidade, os textos evangélicos insistem sobre outro aspecto: João diz expressamente que "tendo já o diabo metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse" (Jo 13, 2); analogamente escreve Lucas: "Entrou Satanás em Judas, chamado Iscariotes, que era do número dos Doze" (Lc 22, 3).

    Desta forma, vai-se além das motivações históricas e explica-se a vicissitude com base na responsabilidade pessoal de Judas, o qual cedeu miseravelmente a uma tentação do maligno. A traição de Judas permanece, contudo, um mistério. Jesus tratou-o como um amigo (cf. Mt 26, 50), mas, nos seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, não forçava as vontades nem as preservava das tentações de Satanás, respeitando a liberdade humana...

    Recordemo-nos de que também Pedro se queria opor a ele e ao que o esperava em Jerusalém, mas recebeu uma forte reprovação: "Tu não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens" (Mc 8, 32-33)! Pedro, depois da sua queda, arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição...

    Tenhamos presentes duas coisas. A primeira: Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico de misericórdia e de perdão. Afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas, devemos inseri-lo na condução superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, o qual transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2.25).

    O Verbo "trair" deriva de uma palavra grega que significa "entregar". Por vezes, o seu sujeito é inclusivamente Deus em pessoa: foi ele que por amor "entregou" Jesus por todos nós (cf. Rm 8, 32). No seu misterioso projecto salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo.

    "EM TI, SENHOR, MEU REFUGIO, JAMAIS SEREI CONFUNDIDO"

    Terça-feira, dia 18 de Março de 2008

    S. Cirilo de Jerusalém, bispo, Doutor da Igreja, +386

    Livro de Isaías 49,1-6.

    «Ouvi-me, habitantes das ilhas, prestai atenção, povos de longe. Quando ainda estava no ventre materno, o SENHOR chamou-me, quando ainda estava no seio da minha mãe, pronunciou o meu nome.
    Fez da minha palavra uma espada afiada, escondeu-me na concha da sua mão. Fez da minha mensagem uma seta penetrante, guardou-me na sua aljava.
    Disse-me: «Israel, tu és o meu servo, em ti serei glorificado.»

    Eu dizia a mim mesmo: «Em vão me cansei, em vento e em nada gastei as minhas forças.» Porém, o meu direito está nas mãos do SENHOR, e no meu Deus a minha recompensa.
    E agora o SENHOR declara-me que me formou desde o ventre materno, para ser o seu servo, para lhe reconduzir Jacob, e para lhe congregar Israel. Assim me honrou o SENHOR. O meu Deus tornou-se a minha força.
    Disse-me: «Não basta que sejas meu servo, só para restaurares as tribos de Jacob, e reunires os sobreviventes de Israel. Vou fazer de ti luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra.»

    Livro de Salmos 71(70),1-2.3-4.5-6.15.17.

    Em ti, SENHOR, me refugio, jamais serei confundido.

    Pela tua justiça, livra-me e protege-me; inclina para mim os teus ouvidos e salva-me.
    Sê a minha protecção e o refúgio onde me acolho. Tu prometeste salvar-me, pois és o meu rochedo e a minha fortaleza.

    Meu Deus, livra-me das mãos do ímpio, das mãos do opressor e do violento.
    Tu és a minha esperança, ó Senhor DEUS, e a minha confiança desde a juventude.
    Em ti me apoio desde o seio materno, desde o ventre materno és o meu protector; és o objecto contínuo do meu louvor.

    minha boca proclamará a tua justiça, e todo o dia anunciarei a tua salvação, sabendo bem que ela é inenarrável.
    Instruíste-me, ó Deus, desde a minha juventude e até hoje anunciei sempre as tuas maravilhas.

    Evangelho segundo S. João 13,21-33.36-38.

    Tendo dito isto, Jesus perturbou-se interiormente e declarou: «Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar!»
    Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saberem a quem se referia.
    Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito.
    Simão Pedro fez-lhe sinal para que lhe perguntasse a quem se referia.
    Então ele, apoiando-se naturalmente sobre o peito de Jesus, perguntou: «Senhor, quem é?»

    Jesus respondeu: «É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado.» E molhando o bocado de pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes.
    E, logo após o bocado, entrou nele Satanás. Jesus disse-lhe, então: «O que tens a fazer fá-lo depressa.»

    Nenhum dos que estavam com Ele à mesa entendeu, porém, com que fim lho dissera.
    Alguns pensavam que, como Judas tinha a bolsa, Jesus lhe tinha dito: 'Compra o que precisamos para a Festa', ou que desse alguma coisa aos pobres.
    Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite.
    Depois de Judas ter saído, Jesus disse: «Agora é que se revela a glória do Filho do Homem e assim se revela nele a glória de Deus.
    E, se Deus revela nele a sua glória, também o próprio Deus revelará a glória do Filho do Homem, e há-de revelá-la muito em breve.»

    «Filhinhos, já pouco tempo vou estar convosco. Haveis de me procurar, e, assim como Eu disse aos judeus: 'Para onde Eu for vós não podereis ir', também agora o digo a vós.
    Disse-lhe Simão Pedro: «Senhor, para onde vais?» Jesus respondeu-lhe: «Para onde Eu vou, tu não me podes seguir por agora; hás-de seguir-me mais tarde.»
    Disse-lhe Pedro: «Senhor, porque não posso seguir-te agora? Eu daria a vida por ti!»
    Replicou Jesus: «Darias a vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: não cantará o galo, antes de me teres negado três vezes!»

    Santo Ambrósio (cerca de 340-397), bispo de Milão e doutor da Igreja
    Comentário ao evangelho de S. Lucas

    “Antes de o galo cantar, negar-me-ás três vezes”

    Pedro negou uma primeira vez e não chorou, porque o Senhor não o olhou. Negou-o uma segunda vez e não chorou, porque o Senhor ainda não o tinha olhado. Negou-o uma terceira vez, Jesus olhou-o, e ele chorou, amargamente (Lc 22,62). Olha-nos, Senhor Jesus, para que saibamos chorar o nosso pecado. Isto mostra que mesmo a queda dos santos pode ser útil. A negação de Pedro não me fez mal; ao contrário, com o seu arrependimento, eu ganhei: aprendi a defender-me de um ambiente infiel…

    Portanto, Pedro chorou, e muito amargamente; chorou para chegar a lavar a sua culpa com as lágrimas. Também vós, se quereis obter o perdão, apagai a vossa falta com as lágrimas; nesse exacto momento, nessa mesma hora, Cristo olha-vos. Se vos suceder alguma queda, ele, testemunha presente da vossa vida secreta, olha-vos para vos lembrar e vos fazer confessar os vossos erros. Fazei então como Pedro, que disse noutra ocasião por três vezes: “Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21, 15). Ele negou três vezes, três vezes também ele confessa; mas ele negou na noite, e confessa em pleno dia.

    Tudo isto está escrito para nos fazer compreender que ninguém se deve vangloriar. Se Pedro caiu por ter dito: “Ainda que todos se escandalizem de Ti, eu nunca me escandalizarei” (Mt 26,33), que outra pessoa estaria no direito de contar consigo próprio?... Donde te chamarei, Pedro, para me ensinares os teus pensamentos quando tu choravas? Do céu onde já tomaste lugar entre os coros dos anjos, ou ainda do túmulo? Porque a morte, da qual o Senhor ressuscitou, não te repugna por seu turno. Ensina-nos em que é que as tuas lágrimas te foram úteis. Mas tu ensinaste-o bem depressa: porque tendo caído antes de chorar, as tuas lágrimas fizeram-te ser escolhido para conduzir outros, tu que, inicialmente, não tinhas sabido conduzir-te a ti mesmo.

    "EIS O TEU REI"

    Domingo, dia 16 de Março de 2008

    Domingo de Ramos (ofício próprio) ,   Santa Margarida de Cortona, religiosa, penitente, +1297

    Livro de Isaías 50,4-7.

    «O Senhor DEUS ensinou-me o que devo dizer, para saber dar palavras de alento aos desanimados. Cada manhã desperta os meus ouvidos, para que eu aprenda como os discípulos.
    O Senhor DEUS abriu-me os ouvidos, e eu não resisti, nem recusei.
    Aos que me batiam apresentei as espáduas, e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e cuspiam.
    Mas o Senhor DEUS veio em meu auxílio; por isso não sentia os ultrajes. Endureci o meu rosto como uma pedra, pois sabia que não ficaria envergonhado.

    Livro de Salmos 22(21),8-9.17-18.19-20.23-24.

    Todos os que me vêem escarnecem de mim; estendem os lábios e abanam a cabeça.

    «Confiou no SENHOR, Ele que o livre; Ele que o salve, já que é seu amigo.»
    Estou rodeado por matilhas de cães, envolvido por um bando de malfeitores; trespassaram as minhas mãos e os meus pés: posso contar todos os meus ossos. Eles olham para mim cheios de espanto!

    Repartem entre si as minhas vestes e sorteiam a minha túnica.
    Mas Tu, SENHOR, não te afastes de mim! És o meu auxílio: vem socorrer-me depressa!
    Então anunciarei o teu nome aos meus irmãos e te louvarei no meio da assembleia.

    Vós, que temeis o SENHOR, louvai-o! Glorificai-o, descendentes de Jacob! Reverenciai-o, descendentes de Israel!

    Carta aos Filipenses 2,6-11.

    Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus;
    no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem,
    rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.
    Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome,
    para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra;
    e toda a língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor!”, para glória de Deus Pai.

    Evangelho segundo S. Mateus 26,14-75.27,1-66.

    Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes
    e disse-lhes: «Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
    E, a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
    No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»
    Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de um certo homem e dizei-lhe: 'O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.’»

    Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa.
    Ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze.
    Enquanto comiam, disse: «Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.»
    Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: «Porventura serei eu, Senhor?»
    Ele respondeu: «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará.
    O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!»

    Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: «Porventura serei eu, Mestre?» «Tu o disseste» respondeu Jesus.
    Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai, comei: Isto é o meu corpo.»
    Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos.
    Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos, para perdão dos pecados.

    Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira, até ao dia em que beber o vinho novo convosco no Reino de meu Pai.»
    Depois de cantarem os salmos, saíram para o Monte das Oliveiras.
    Jesus disse-lhes, então: «Nesta mesma noite, todos ficareis perturbados por minha causa, porque está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho serão dispersas.
    Mas, depois da minha ressurreição, hei-de preceder-vos na Galileia.»
    Tomando a palavra, Pedro respondeu-lhe: «Ainda que todos fiquem perturbados por tua causa, eu nunca me perturbarei!»
    Jesus retorquiu-lhe: «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes de o galo cantar, vais negar-me três vezes.»

    Pedro disse-lhe: «Mesmo que tenha de morrer contigo, não te negarei!» E todos os discípulos afirmaram o mesmo.
    Entretanto, Jesus com os seus discípulos chegou a um lugar chamado Getsémani e disse-lhes: «Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar.»
    E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se.
    Disse-lhes, então: «A minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai comigo.»
    E, adiantando-se um pouco mais, caiu com a face por terra, orando e dizendo: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, não seja como Eu quero, mas como Tu queres.»
    Voltando para junto dos discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: «Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo!
    Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é débil.»
    Afastou-se, pela segunda vez, e foi orar, dizendo: «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade!»

    Depois voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois os seus olhos estavam pesados.
    Deixou-os e foi orar de novo pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.
    Reunindo-se finalmente aos discípulos, disse-lhes: «Continuai a dormir e a descansar! Já se aproxima a hora, e o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores.
    Levantai-vos, vamos! Já se aproxima aquele que me vai entregar.»
    Ainda Ele falava, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus, enviada pelos sumos sacerdotes e pelos anciãos do povo.
    O traidor tinha-lhes dado este sinal: «Aquele que eu beijar, é esse mesmo: prendei-o.»
    Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: «Salve, Mestre!» E beijou-o.
    Jesus respondeu-lhe: «Amigo, a que vieste?» Então, avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no.

    Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe uma orelha.
    Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada.
    Julgas que não posso recorrer a meu Pai? Ele imediatamente me enviaria mais de doze legiões de anjos!
    Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve acontecer?»
    Voltando-se, depois, para a multidão, disse: «Viestes prender-me com espadas e varapaus, como se eu fosse um ladrão! Todos os dias estava sentado no templo a ensinar, e não me prendestes.

    Mas tudo isto aconteceu, para que se cumprissem as Escrituras dos profetas.» Então, todos os discípulos o abandonaram e fugiram.
    Os que tinham prendido Jesus conduziram-no à casa do Sumo Sacerdote Caifás, onde os doutores da Lei e os anciãos do povo se tinham reunido.
    Pedro seguiu-o de longe até ao palácio do Sumo Sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se entre os servos, para ver o desfecho de tudo aquilo.
    Os sumos sacerdotes e todo o Conselho procuravam um depoimento falso contra Jesus, a fim de o condenarem à morte.
    Mas não o encontraram, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Apresentaram-se finalmente duas,
    que declararam: «Este homem disse: 'Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias.’»

    O Sumo Sacerdote ergueu-se, então, e disse-lhe: «Não respondes nada? Que dizes aos que depõem contra ti?»
    Mas Jesus continuava calado. O Sumo Sacerdote disse-lhe: «Intimo-te, pelo Deus vivo, que nos digas se és o Messias, o Filho de Deus.»
    Jesus respondeu-lhe: «Tu o disseste. E Eu digo-vos: Vereis um dia o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu.»
    Então, o Sumo Sacerdote rasgou as vestes, dizendo: «Blasfemou! Que necessidade temos, ainda, de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia.
    Que vos parece?» Eles responderam: «É réu de morte.»

    Depois cuspiam-lhe no rosto e batiam-lhe. Outros esbofeteavam-no, dizendo:
    «Profetiza, Messias: quem foi que te bateu?»
    Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe: «Tu também estavas com Jesus, o Galileu.»
    Mas ele negou diante de todos, dizendo: «Não sei o que dizes.»
    Dirigindo-se para a porta, outra criada viu-o e disse aos que ali estavam: «Este também estava com Jesus, o Nazareno.»

    Ele negou de novo com juramento: «Não conheço esse homem.»
    Um momento depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: «Com certeza tu és dos seus, pois até a tua maneira de falar te denuncia.»
    Começou, então, a dizer imprecações e a jurar: «Não conheço esse homem!» No mesmo instante, o galo cantou.
    E Pedro lembrou-se das palavras de Jesus: «Antes de o galo cantar, me negarás três vezes.» E, saindo para fora, chorou amargamente.
    De manhã cedo, todos os sumos sacerdotes e anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para o matarem.

    E, manietando-o, levaram-no ao governador Pilatos.
    Então Judas, que o entregara, vendo que Ele tinha sido condenado, foi tocado pelo remorso e devolveu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:
    «Pequei, entregando sangue inocente.» Eles replicaram: «Que nos importa? Isso é lá contigo.»
    Atirando as moedas para o santuário, ele saiu e foi enforcar-se.
    Os sumos sacerdotes, apanhando as moedas, disseram: «Não é lícito lançá-las no tesouro, pois são preço de sangue.»

    Depois de terem deliberado, compraram com elas o «Campo do Oleiro», para servir de cemitério aos estrangeiros.
    Por tal razão, aquele campo é chamado, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue.»
    Deste modo, cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado aquele que os filhos de Israel avaliaram, e
    deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor havia ordenado.»
    Jesus foi conduzido à presença do governador, que lhe perguntou: «Tu és o Rei dos Judeus?» Jesus respondeu: «Tu o dizes.»
    Mas, ao ser acusado pelos sumos sacerdotes e anciãos, nada respondeu.
    Pilatos disse-lhe, então: «Não ouves tudo o que dizem contra ti?»
    Mas Ele não respondeu coisa alguma, de modo que o governador estava muito admirado.
    Ora, por ocasião da festa, o governador costumava conceder a liberdade a um prisioneiro, à escolha do povo.

    Nessa altura havia um preso afamado, chamado Barrabás.
    Pilatos perguntou ao povo, que se encontrava reunido: «Qual quereis que vos solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?»
    Ele sabia que o tinham entregado por inveja.
    Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer: «Não te intrometas no caso desse justo, porque hoje muito sofri em sonhos por causa dele.»
    Mas os sumos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a pedir Barrabás e exigir a morte de Jesus.
    Tomando a palavra, o governador inquiriu: «Qual dos dois quereis que vos solte?» Eles responderam: «Barrabás!»
    Pilatos disse-lhes: «Que hei de fazer, então, de Jesus chamado Cristo?» Todos responderam: «Seja crucificado!»
    Pilatos insistiu: «Que mal fez Ele?» Mas eles cada vez gritavam mais: «Seja crucificado!»
    Pilatos, vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.»

    E todo o povo respondeu: «Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!»
    Então, soltou-lhes Barrabás. Quanto a Jesus, depois de o mandar flagelar, entregou-o para ser crucificado.
    Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e reuniram toda a coorte à volta dele.
    Despiram-no e envolveram-no com um manto escarlate.
    Tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e uma cana na mão direita. Dobrando o joelho diante dele, escarneciam-no, dizendo: «Salve! Rei dos Judeus!»
    E, cuspindo-lhe no rosto, agarravam na cana e batiam-lhe na cabeça.
    Depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto, vestiram-lhe as suas roupas e levaram-no para ser crucificado.
    À saída, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e obrigaram-no a levar a cruz de Jesus.

    Quando chegaram a um lugar chamado Gólgota, isto é, «Lugar do Crânio»,
    deram-lhe a beber vinho misturado com fel; mas Ele, provando-o, não quis beber.
    Depois de o terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte.
    Ficaram ali sentados a guardá-lo.
    Por cima da sua cabeça, colocaram um escrito, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o rei dos Judeus.»
    Com Ele, foram crucificados dois salteadores: um à direita e outro à esquerda.
    Os que passavam injuriavam-no, meneando a cabeça e
    dizendo: «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz!»
    Os sumos sacerdotes com os doutores da Lei e os anciãos também zombavam dele, dizendo:
    «Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é o rei de Israel, desça da cruz, e acreditaremos nele.

    Confiou em Deus; Ele que o livre agora, se o ama, pois disse: 'Eu sou Filho de Deus!’»
    Até os salteadores, que estavam com Ele crucificados, o insultavam.
    Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra.
    Cerca das três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: Eli, Eli, lemá sabactháni?, isto é: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?
    Alguns dos que ali se encontravam, ao ouvi-lo, disseram: «Está a chamar por Elias.»
    Um deles correu imediatamente, pegou numa esponja, embebeu a em vinagre e, fixando-a numa cana, dava-lhe de beber.

    Mas os outros disseram: «Deixa; vejamos se Elias vem salvá-lo.»
    E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.
    Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. A terra tremeu e as rochas fenderam-se.
    Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, que estavam mortos, ressuscitaram;
    e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
    O centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram apavorados e disseram: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus!»
    Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram.

    Entre elas, estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.
    Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus.
    Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos ordenou que lho entregassem.
    José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo
    e depositou-o num túmulo novo, que tinha mandado talhar na rocha. Depois, rolou uma grande pedra contra a porta do túmulo e retirou-se.
    Maria de Magdala e a outra Maria estavam ali sentadas, em frente do sepulcro.
    No dia seguinte, que era o dia a seguir ao da Preparação, os sumos sacerdotes e os fariseus reuniram-se com Pilatos

    e disseram-lhe: «Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: 'Três dias depois hei-de ressuscitar.’
    Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: 'Ressuscitou dos mortos.’ E seria a última impostura pior do que a primeira.»
    Pilatos respondeu-lhes: «Tendes guardas. Ide e guardai o como entenderdes.»
    E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.

    Santo António (c. 1195-1231), franciscano, Doutor da Igreja
    Sermões para o domingo e as festas dos santos

    “Eis o teu Rei”

    “Eis o teu Rei” (Za 9, 9), acerca do qual Jeremias nos fala nos seguintes termos: “Ninguém há semelhante a Vós, Senhor! Vós sois grande! Grande e poderoso é o Vosso nome. Quem Vos não temerá, Rei dos povos?” (Jer 10, 6-7). Deste Rei diz-nos o Apocalipse: “Sobre o Seu manto e sobre a Sua coxa, um nome está escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19, 16). O Seu manto são as faixas; a Sua coxa é a carne. Em Nazaré, onde tomou carne, foi coroado como que com um diadema; em Belém, foi envolvido em faixas como que de púrpura real.

    Tais foram as primeiras insígnias da Sua realeza. E foi contra estas insígnias que se encarniçaram os Seus inimigos, para assinalar a vontade que tinham de Lhe retirar a realeza; no decurso da Paixão, despojaram-No das Suas vestes, a Sua carne foi trespassada com pregos. Ou melhor, foi nessa altura que Lhe foi dado o complemento das Suas insígnias reais: já tinha a coroa e a púrpura, recebeu o ceptro quando, “carregando às costas a cruz, saiu para o lugar chamado Crânio” (Jo 19, 17).

    Então, nas palavras de Isaías, teve “a soberania sobre os seus ombros” (9, 5); e diz a Carta aos Hebreus: “Vemos, porém, coroado de honra e glória aquele Jesus que por um pouco tempo foi feito inferior aos anjos, em virtude de ter padecido a morte” (Heb 2, 9).

    Eis, pois, o teu rei, que vem a ti, para te dar a felicidade. Vem na mansidão, para Se fazer amar, e não no poder, para Se fazer temer. Vem sentado num burrinho. […] As virtudes próprias dos reis são a justiça e a bondade. Assim, o teu Rei é justo: “Retribuirá a cada um conforme o seu procedimento” (Mt 16, 27). É manso; é “o teu Redentor” (Is 54, 5). E também é pobre; como diz o Apóstolo Paulo, “despojou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo” (Fil 2, 7).

    No paraíso terrestre, Adão recusou-se a servir o Senhor; então, o Senhor tomou a forma de escravo, fez-Se servo do escravo, a fim de que o escravo já não corasse por servir o Senhor. Fez-Se igual aos homens; “tornando-Se semelhante aos homens” (Fil 2, 7). […] É pobre, Ele que “não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20), até ao momento em que, “inclinando a cabeça” na cruz, “rendeu o espírito” (Jo, 19, 30).

    SÃO JOSÉ, UM MODELO PARA TODOS

    Sábado, dia 15 de Março de 2008

    S. José, Esposo da Virgem Maria

    Livro de 2º Samuel 7,4-5.12-14.16.

    Mas, naquela mesma noite, o Senhor falou a Natan, dizendo-lhe:

    «Vai dizer ao meu servo David: Diz o Senhor: "És tu que me vais construir uma casa para Eu habitar?

    Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais, manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino.

    Ele construirá um templo ao meu nome, e Eu firmarei para sempre o seu trono régio.

    Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho. Se ele cometer alguma falta, hei de corrigi-lo com varas e com açoites, como fazem os homens,

    A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de mim, e o teu trono estará firme para sempre".»

    Livro de Salmos 89,2-3.4-5.27.29.

    Hei de cantar para sempre o amor do SENHOR; a todas as gerações anunciarei a sua fidelidade.

    Proclamarei que o teu amor é para sempre, e que a tua fidelidade é eterna como o céu.

    «Fiz uma aliança com o meu eleito, jurei a David, meu servo:

    ‘Estabelecerei a tua descendência para sempre e o teu trono há-de manter-se eternamente’.»

    Ele me invocará, dizendo: ‘Tu és meu pai, és o meu Deus e o rochedo da minha salvação!’

    Hei-de assegurar-lhe para sempre o meu favor e a minha aliança com ele há-de manter-se firme.

    Carta aos Romanos 4,13.16-18.22.

    Não foi em virtude da Lei, mas da justiça obtida pela fé que a Abraão, ou à sua descendência, foi feita a promessa de que havia de receber o mundo em herança.

    Por isso, é da fé que depende a herança. Só assim é que esta é gratuita, de tal modo que a promessa se mantém válida para todos os descendentes: não apenas para aqueles que o são em virtude da Lei, mas também para os que o são em virtude da fé de Abraão, pai de todos nós,

    conforme o que está escrito: Fiz de ti o pai de muitos povos. Pai diante daquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe.

    Foi com uma esperança, para além do que se podia esperar, que ele acreditou e assim se tornou pai de muitos povos, conforme o que tinha sido dito: Assim será a tua descendência.

    Esta foi exatamente a razão pela qual isso lhe foi atribuído à conta de justiça.

    Evangelho segundo S. Mateus 1,16.18-21.24.

    Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.

    Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo.

    José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente.

    Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo.

    Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.»

    Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa.

    Leão XIII, papa de 1878 a 1903

    Encíclica "Quanquam pluries"

    S. José, um modelo para todos

    Há razões para que os homens de qualquer condição e de qualquer país se recomendem e confiem à fé e à guarda do Bem-aventurado José. Os pais de família encontram em José a mais bela personificação da vigilância e da solicitude paterna; os esposos, perfeito exemplo de amor, de entendimento e de fidelidade conjugal; os que são virgens têm nele, ao mesmo tempo que um modelo, um protetor.

    Que os privilegiados pelo nascimento aprendam com José a guardar, mesmo no infortúnio, a sua dignidade; que os ricos compreendam, pelas suas lições, quais são os verdadeiros bens que é preciso desejar e adquirir a todo o custo.

    Quanto aos operários, aos pobres, às pessoas de condição desvorecida, têm o direito especial de recorrerem a José e a decidirem imitá-lo. José, com efeito, sendo de descendência real, unido pelo casamento à maior e mais santa das mulheres, olhado com pai do Filho de Deus, passa todavia toda a vida a trabalhar e procura no seu labor de artesão tudo o que é necessário ao sustento da sua família.

    É, pois, verdadeiro que a condição dos humildes não tem nada de abjeto e, não só o trabalho do operário não é desonroso como pode, se a virtude se lhe juntar, ser grandemente enobrecido. José, contente com o pouco que possuía, suportou essas dificuldades... com grandeza de alma, à imitação de seu Filho que, após ter aceitado a situação de escravo, Ele, que era o Senhor de todas as coisas (Fl 2,7), se submeteu voluntariamente à indigência e à falta de tudo.

    "EU TA AMO, Ó SENHOR, MINHA FORÇA!"

    Sexta-feira, dia 14 de Março de 2008

    Santa Matilde, rainha da Prússia, +968

    Livro de Jeremias 20,10-13.

    Ouvia invectivas da multidão: «Cerco de terror! Denunciai-o! Vamos denunciá-lo!» Os que eram meus amigos espiam agora os meus passos: «Se o enganarmos, triunfaremos dele, e dele nos vingaremos.»
    O Senhor, porém, está comigo, como poderoso guerreiro. Por isso, os meus perseguidores serão esmagados e cobertos de confusão, porque não hão-de prevalecer. A sua ignomínia nunca se apagará da memória.
    Mas Tu, Senhor do universo, examinas o justo, sondas os rins e os corações. Que eu possa contemplar a tua vingança contra eles, pois a ti confiei a minha causa!
    Cantai ao Senhor, glorificai o Senhor, porque salvou a vida do pobre da mão dos malvados.

    Livro de Salmos 18(17),2-3.3-4.5-6.7.

    Eu te amo, ó SENHOR, minha força.

    SENHOR é a minha rocha, fortaleza e protecção; o meu Deus é o abrigo em que me refugio, o meu escudo, o meu baluarte de defesa.

    Invoquei o SENHOR, que é digno de louvor, e fui salvo dos meus inimigos.
    Cercaram-me as ondas da morte e as vagas destruidoras encheram-me de terror;
    envolveram-me os laços do Abismo e lançaram-me as suas redes fatais.

    Na minha angústia invoquei o SENHOR e gritei pelo meu Deus. Do seu santuário, Ele ouviu a minha voz; o meu clamor chegou aos seus ouvidos.

    Evangelho segundo S. João 10,31-42.

    Então, os judeus voltaram a pegar em pedras para o apedrejarem.
    Jesus replicou-lhes: «Mostrei-vos muitas obras boas da parte do Pai; por qual dessas obras me quereis apedrejar?»
    Responderam-lhe os judeus: «Não te queremos apedrejar por qualquer obra boa, mas por uma blasfémia: é que Tu, sendo um homem, a ti próprio te fazes Deus.»
    Jesus respondeu-lhes: «Não está escrito na vossa Lei: 'Eu disse: vós sois deuses'?
    Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus e a Escritura não se pode pôr em dúvida.
    A mim, a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, como é que dizeis: 'Tu blasfemas', por Eu ter dito: 'Sou Filho de Deus'?

    Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim;
    mas se as faço, embora não queirais acreditar em mim, acreditai nas obras, e assim vireis a saber e ficareis a compreender que o Pai está em mim e Eu no Pai.»
    Por isso procuravam de novo prendê-lo, mas Ele escapou-se-lhes das mãos.
    Depois, Jesus voltou a retirar-se para a margem de além-Jordão, para o lugar onde ao princípio João tinha estado a baptizar, e ali se demorou.
    Muitos vieram ter com Ele e comentavam: «Realmente João não realizou nenhum sinal milagroso, mas tudo quanto disse deste homem era verdade.»
    E muitos ali creram nele.

    Comentário ao Santo Evangelho: Odes de Salomão (texto cristão hebraico do princípio do séc. II)
    n.º 28

    «Procuravam de novo prendê-Lo, mas Ele escapou-se-lhes das mãos»

    Como asas de pombas que protegem as crias […]
    Assim são as asas do Espírito sobre o meu coração.
    O meu coração rejubila e estremece
    Qual criança no seio da mãe.

    Cri e encontrei o descanso
    Aquele em quem eu acreditei é fiel.
    Abençoou-me
    E a minha cabeça para Ele se voltou.
    Gládio algum, ou espada
    d’Ele me separará,

    Preparei-me, antes da hora da perda,
    Em seus braços incorruptíveis me acalentei.
    A vida imortal a tal me levou, me constrangiu ;
    E dela vem o Espírito que me habita ;
    Que não pode morrer, porque é a vida.

    [Fala Jesus Cristo :]
    Os que me viram em espanto ficaram
    Porque eu era perseguido.
    Pensavam-me aniquilado,
    Porque a seus olhos eu estava perdido.
    Mas a opressão tornou-se a minha salvação.

    Tornara-me objecto de desprezo.
    Em mim nada havia que invejar ;
    A todos fazia o bem,
    E fui odiado por isso.
    Como cães enraivecidos me cercaram (Sl 21, 17),
    Insensatos que contra seus amos se revoltam;
    Têm corrompida a inteligência, pervertido o espírito.

    Retive as águas do meu lado direito,
    Em mansidão suportei-lhes o rancor.
    Não pereci, pois não era dessa casta,
    O meu nascimento não foi como o seu.
    Procuraram a minha morte e não o conseguiram ;
    Eu era mais antigo que a sua memória.

    Sobre Mim em vão se arremessaram
    Os que Me perseguiam ;
    Em vão procuraram extinguir
    A memória d’Aquele que era antes deles.
    Nada pode ultrapassar o desígnio do Altíssimo,
    O seu coração é superior a toda a sabedoria.
    Aleluia !

    "CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ"

    Quarta-feira, dia 12 de Março de 2008

    S. Luís Orione, sacerdote, fundador, +1940 ,   Santo Inocêncio I, papa, +417

    Livro de Daniel 3,14-20.91-92.95.

    Disse-lhes Nabucodonosor: «Chadrac, Mechac e Abed-Nego, é verdade que rejeitais o culto aos meus deuses e a adoração à estátua de ouro erigida por mim?
    Pois bem! Estais dispostos, no momento em que ouvirdes o som da trombeta, da flauta, da cítara, da lira, da harpa, do saltério e de qualquer outro instrumento musical, a prostrar-vos em adoração diante da estátua que eu fiz? Se não o fizerdes, sereis logo lançados dentro da fornalha ardente. E qual o deus que poderá libertar-vos da minha mão?»

    Chadrac, Mechac e Abed-Nego responderam ao rei Nabucodonosor: «Não vale a pena responder-te a propósito disto.
    Se isso assim é, o Deus que nós servimos pode livrar-nos da fornalha incandescente, e até mesmo, ó rei, da tua mão.
    E ainda que o não faça, fica sabendo, ó rei, que não prestamos culto aos teus deuses e que não adoramos a estátua de ouro que tu levantaste.»
    Então explodiu a fúria de Nabucodonosor contra Chadrac, Mechac e Abed-Nego; a expressão do seu rosto mudou e levantou a voz para mandar que se aquecesse a fornalha sete vezes mais que de costume.

    Em seguida, ordenou aos soldados mais vigorosos do seu exército que amarrassem Chadrac, Mechac e Abed-Nego, a fim de os lançar na fornalha incandescente.
    Então o rei Nabucodonosor, estupefacto, levantou-se repentinamente, dizendo para os seus conselheiros: «Não foram três homens, atados de pés e mãos, que lançámos ao fogo?» Responderam eles ao rei: «Com certeza».

    «Pois bem –replicou o rei – vejo quatro homens soltos, que passeiam no meio do fogo, sem este lhes causar mal; o quarto tem o aspecto de um filho de Deus.»
    Nabucodonosor, tomando a palavra, disse: «Bendito seja o Deus de Chadrac, de Mechac e de Abed-Nego! Ele enviou o seu anjo para libertar os seus servos que, confiando nele, expuseram a vida, transgredindo as ordens do rei, antes que prostrarem-se em adoração diante de um outro deus que não fosse o Deus deles.

    Dan. 3,52.53.54.55.56.

    «Bendito sejas, Senhor, Deus de nossos pais:– digno de louvor e glória eternamente! Bendito seja o teu nome santo e glorioso:– digno de supremo louvor e exaltação eternamente!

    Bendito sejas no templo da tua santa glória: – digno de supremo louvor e glória eternamente!
    Bendito sejas por penetrares os abismos,sentado sobre os querubins: – digno de supremo louvor e exaltação eternamente!

    Bendito sejas no teu trono real: – digno de supremo louvor e exaltação eternamente!
    Bendito sejas no firmamento dos céus:– digno de supremo louvor e glória eternamente!

    Evangelho segundo S. João 8,31-42.

    Então, Jesus pôs-se a dizer aos judeus que nele tinham acreditado: «Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos,
    conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.»
    Replicaram-lhe: «Nós somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém! Como é que Tu dizes: 'Sereis livres'?»

    Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: todo aquele que comete o pecado é servo do pecado,
    e o servo não fica na família para sempre; o filho é que fica para sempre.
    Pois bem, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres.
    Eu sei que sois descendentes de Abraão; no entanto, procurais matar-me, porque não aderis à minha palavra.

    Eu comunico o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai.»
    Eles replicaram-lhe: «O nosso pai é Abraão!» Jesus disse-lhes: «Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão!
    Agora, porém, vós pretendeis matar-me, a mim, um homem que vos comunicou a verdade que recebi de Deus. Isso não o fez Abraão!

    Vós fazeis as obras do vosso pai.» Eles disseram-lhe, então: «Nós não nascemos da prostituição. Temos um só Pai, que é Deus.»
    Disse-lhes Jesus: «Se Deus fosse vosso Pai, ter-me-íeis amor, pois é de Deus que Eu saí e vim. Não vim de mim próprio, mas foi Ele que me enviou.

    S. João Crisóstomo (c. de 345 - 407), bispo de Antioquia, depois Patriarca de Constantinopla
    36ª homilia sobre o Génesis

    Agir como Abraão

    Olhando para a promessa de Deus e deixando de lado qualquer perspectiva humana, sabendo que Deus é capaz de obras que ultrapassam a natureza, Abraão confiou nas palavras que lhe tinham sido dirigidas, não guardou nenhuma dúvida no seu espírito e não hesitou sobre o sentido que devia dar às palavras de Deus. Porque é próprio da fé confiar no poder daquele que nos fez uma promessa... Deus tinha prometido a Abraão que dele nasceria uma descendência incontável. Esta promessa ultrapassava as possibilidades da natureza e as perspectivas puramente humanas; por isso é que a fé que ele tinha em Deus "lhe foi contada como justiça" (Gn 15,6; Ga ,6).

    Pois bem, se formos vigilantes, veremos que nos foram feitas promessas ainda mais maravilhosas e seremos compensados muito mais do que pode sonhar o pensamento humano. Para isso, temos apenas que confiar no poder daquele que nos fez essas prmessas, a fim de merecermos a justificação que vem da fé e de obtermos os bens prometidos. Porque todos esses bens que esperamos ultrapassam toda a concepção humana e todo o pensamento, de tal forma é magnífico o que nos foi prometido!

    Com efeito, essas promessas não dizem respeito apenas ao presente, à realização plena das nossas vidas e ao gozo dos bens visíveis, mas dizem também respeito ao tempo em que tivermos deixado esta terra, quando os nossos corpos tiverem sido sujeitos à corrupção, quando os nossos restos mortais forem reduzidos a pó. Então Deus promete-nos que nos ressuscitará e nos estabelecerá numa glória magnífica; "porque é preciso, assegura-nos S. Paulo, que o nosso ser corruptível revista a incorruptibilidade, que o nosso ser mortal revista a imortalidade" (1 Co 15,53).

    Além disso, depois da ressurreição dos nossos corpos, recebemos a promessa de gozarmos do Reino e de beneficiarmos durante séculos sem fim, na companhia dos santos, desses bens inefáveis que "os olhos do homem não viram, que o seu ouvido não ouviu e que o seu coração é incapaz de sondar" (1 Co 2,9). Vês a superabundância das promessas? Vês a grandeza destes dons?     

    "AQUELE QUE DENTRE VÓS ESTIVER SEM PECADO, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA"

    Segunda-Feira, 10 de março de 2008

    Livro de Daniel 13,1-9.15-17.19-30.33-62.

    Havia um homem chamado Joaquim, que habitava na Babilónia.
    Tinha desposado uma mulher de nome Susana, filha de Hilquias, muito bela e piedosa para com o Senhor,
    pois tinha sido educada pelos pais, que eram justos, de harmonia com a lei de Moisés.
    Joaquim era muito rico. Contíguo à sua casa, tinha um pomar; e com frequência se reuniam em casa dele os judeus, pois que entre todos os seus compatriotas gozava de particular consideração.
    Tinham sido nomeados juízes, naquele ano, dois anciãos do povo. A eles justamente se aplicava a palavra do Senhor: «A iniquidade veio da Babilónia, de anciãos e juízes, que passavam por dirigir o povo.»

    Estas duas personagens frequentavam a casa de Joaquim, onde vinham procurá-los todos os que tinham qualquer contenda.
    À hora do meio-dia, quando toda esta gente se tinha retirado, Susana ia passear para o jardim do marido.
    Os dois anciãos viam-na todos os dias, por ocasião do passeio, de maneira que a sua paixão se acendeu por ela.
    Perderam a justa noção das coisas, afastaram os olhos para não olharem para o céu e não se lembrarem da verdadeira regra de conduta.
    Um dia, como de costume, chegou Susana, acompanhada apenas por duas criadas, e preparava-se para tomar banho no jardim, pois fazia calor.
    Não havia aí ninguém senão os dois anciãos que, escondidos, a espiavam.
    Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as portas do jardim, para eu tomar banho.»

    Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
    e disseram-lhe: «As portas do jardim estão fechadas, ninguém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
    Se não quiseres, vamos denunciar-te. Diremos que um rapaz estava contigo e que foi por isso mesmo que tu mandaste embora as criadas.»
    Susana bradou angustiada: «Estou sujeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escaparei.
    Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Senhor.»

    Susana, então, soltou altos gritos e os dois anciãos gritaram também com ela.
    E um deles, correndo para as portas do jardim, abriu-as.
    As pessoas da casa, ao ouvirem esta gritaria, precipitaram-se pela porta traseira para ver o que tinha acontecido.
    Logo que os anciãos falaram, os criados coraram de vergonha, pois jamais se tinha dito coisa semelhante de Susana.
    No dia seguinte, os dois anciãos, dominados pelo desejo criminoso contra a vida de Susana, vieram à reunião que tinha lugar em casa de Joaquim, seu marido.
    Disseram diante de toda a gente: «Que se vá procurar Susana, filha de Hilquias, a mulher de Joaquim!» Foram procurá-la.

    E veio com os seus pais, os filhos e os membros da sua família.
    Choravam todos os seus, assim como todos os que a conheciam.
    Os dois anciãos levantaram-se diante de todo o povo e puseram a mão sobre a cabeça de Susana,
    enquanto ela, debulhada em lágrimas, mas de coração cheio de confiança no Senhor, olhava para o céu.
    Disseram então os anciãos: «Quando passeávamos a sós pelo jardim, entrou ela com duas criadas; e depois de ter fechado as portas, mandou embora as criadas.
    Então, um jovem, que estava lá escondido, aproximou-se e pecou com ela.
    Encontrávamo-nos a um canto do jardim. Perante semelhante atrevimento, corremos para eles e surpreendemo-los em flagrante delito.
    Não pudemos ter mão no rapaz, porque era mais forte do que nós, abriu a porta e escapou-se.

    A ela apanhámo-la; mas, quando a interrogámos para saber quem era esse rapaz,
    recusou responder-nos. Somos testemunhas disto.» Dando crédito a estes homens, que eram anciãos e juízes do povo, a assembleia condenou Susana à morte.
    Esta, então, em altos brados disse: «Deus eterno, que sondas os segredos, que conheces os acontecimentos antes que se dêem,
    Tu sabes que proferiram um falso testemunho contra mim. Vou morrer sem ter feito nada daquilo que maldosamente inventaram contra mim.»
    Deus ouviu a sua oração.

    Quando a conduziam para a morte, o Senhor despertou a alma límpida de um rapazinho, chamado Daniel,
    que gritou com voz forte: «Estou inocente da morte dessa mulher!»
    Toda a gente se voltou para ele e disse: «Que é que isso quer dizer?»
    E, dirigindo--se para o meio deles, afirmou: «Israelitas! Estais loucos, para condenardes uma filha de Israel, sem examinardes nem reconhecerdes a verdade?
    Recomeçai o julgamento, porque é um falso testemunho o que estes dois homens declararam contra ela.»

    O povo apressou-se a voltar. Os anciãos disseram a Daniel: «Vem, senta-te no meio de nós e esclarece-nos, porque Deus te deu maturidade!»
    Bradou Daniel: «Separai-os para longe um do outro e eu os julgarei.»
    Separaram-nos. Daniel, então, chamou o primeiro e disse-lhe: «Velho perverso! Eis que se manifestam agora os pecados que cometeste outrora em julgamentos injustos,
    ao condenares os inocentes, absolvendo os culpados, quando o Senhor disse: ‘Não farás com que morra o inocente ou o justo.’
    Vamos! Se realmente os viste, diz-nos debaixo de que árvore os viste entreterem-se um com o outro.» «Sob um lentisco.» – respondeu.
    Retorquiu Daniel: «Pois bem! Aí está a mentira, que pagarás com a tua cabeça. Eis que o anjo do Senhor, conforme a sentença divina, te vai rachar a meio!»

    Afastaram o homem, e Daniel mandou vir o outro e disse-lhe: «Tu és um filho de Canaã e não um judeu. Foi a beleza que te seduziu e a paixão que te perverteu.
    É assim que sempre tendes procedido com as filhas de Israel, que, por medo, entravam em relação convosco. Uma filha de Judá, porém, não consentiu na vossa perversidade.
    Vamos, diz-me: sob que árvore os surpreendeste em atitude de se unirem?» «Sob um carvalho.»
    Respondeu Daniel: «Pois bem! Também tu forjaste uma mentira que te vai custar a vida. Eis que o anjo do Senhor, de espada em punho, se dispõe a cortar-te ao meio, para vos aniquilar.»

    Logo a multidão deu grandes brados, e bendizia a Deus que salva os que põem nele a sua esperança.
    Toda a gente, então, se insurgiu contra os dois anciãos que Daniel tinha convencido de falso testemunho, pelas suas próprias declarações e deu-se-lhes o mesmo tratamento que eles tinham infligido ao seu próximo.
    De harmonia com a lei de Moisés, mataram-nos. Deste modo, foi poupada naquele dia uma vida inocente.

    Livro de Salmos 23(22),1-3.3-4.5.6.

    SENHOR é meu pastor: nada me falta.

    Em verdes prados me faz descansar e conduz-me às águas refrescantes.
    Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome.

    Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome.
    Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança.

    Preparas a mesa para mim à vista dos meus inimigos; ungiste com óleo a minha cabeça; a minha taça transbordou.
    Na verdade, a tua bondade e o teu amor hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do SENHOR para todo o sempre.

    Evangelho segundo S. João 8,1-11.

    Jesus foi para o Monte das Oliveiras.
    De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar.
    Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio
    e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério.
    Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?»

    Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra.
    Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!»
    E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra.

    Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles.
    Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?»
    Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»

    Comentário ao Santo Evangelho: João Paulo II
    Mulieris dignitatem, cap. 5 (trad. © Libreria Editrice Vaticana)

    "Aquele de entre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra"

    Cristo é aquele que «sabe o que há no homem» (cf.Jo 2, 25), no homem e na mulher. Conhece a dignidade do homem, o seu valor aos olhos de Deus. Ele mesmo, Cristo, é a confirmação definitiva deste valor. Tudo o que diz e faz tem o seu cumprimento definitivo no mistério pascal da redenção. O comportamento de Jesus a respeito das mulheres, que encontra ao longo do caminho do seu serviço messianico, é o reflexo do desígnio eterno de Deus, o qual, criando cada uma delas, a escolhe e ama em Cristo (cf. Ef 1, 1-5)...  Jesus de Nazaré confirma esta dignidade, recorda-a, renova-a e faz dela um conteúdo do Evangelho e da redenção, para a qual é enviado ao mundo...

    Jesus entra na situação concreta e hístórica da mulher, situação sobre a qual pesa a herança do pecado. Esta herança exprime-se, entre outras coisas, no costume que discrimina a mulher em favor do homem, e está enraizada também dentro dela. Deste ponto de vista, o episódio da mulher «surpreendida em adultério» (cf. Jo 8, 3-11) parece ser particularmente eloquente. No fim Jesus lhe diz: «não tornes a pecar»; mas, primeiro ele desperta a consciência do pecado nos homens ... Jesus parece dizer aos acusadores: esta mulher, com todo o seu pecado, não é talvez também, e antes de tudo, uma confirmação das vossas transgressões, da vossa injustiça «masculina», dos vossos abusos?

    Esta é uma verdade válida para todo o gênero humano... Uma mulher é deixada só, é exposta diante da opinião pública com «o seu pecado», enquanto por detrás deste «seu» pecado se esconde um homem como pecador, culpado pelo «pecado do outro», antes, co-responsável do mesmo. E, no entanto, o seu pecado escapa à atenção, passa sob silêncio... Quantas vezes a mulher paga pelo próprio pecado mas paga ela só e paga sozinha! Quantas vezes ela fica abandonada na sua maternidade, quando o homem, pai da criança, não quer aceitar a sua responsabilidade?

    E ao lado das numerosas «mães solteiras» das nossas sociedades, é preciso tomar em consideração também todas aquelas que, muitas vezes, sofrendo diversas pressões, inclusive da parte do homem culpado, «se livram» da criança antes do seu nascimento. «Livram-se»: mas a que preço?

    "LÁZARO, SAI PARA FORA"

    Domingo, dia 09 de Março de 2008

    5º Domingo da Quaresma (semana I do saltério) ,   S. Domingos Sávio, jovem religioso, +1857 ,   Santa Francisca Romana, viúva, +1440

    Livro de Ezequiel 37,12-14.

    Profetiza, por conseguinte, e diz-lhes: Assim fala o Senhor DEUS: Eis que abrirei as vossas sepulturas e vos farei sair delas, meu povo, e vos reconduzirei à terra de Israel.
    Então, reconhecereis que Eu sou o Senhor DEUS, quando abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair delas, ó meu povo.
    Introduzirei em vós o meu espírito e vivereis; estabelecer-vos-ei na vossa terra. Então, reconhecereis que Eu, o SENHOR, falei e agi" -oráculo do SENHOR.

    Livro de Salmos 130(129),1-2.3-4.5-6.7-8.

    Do fundo do abismo clamo a ti, SENHOR!

    Senhor, ouve a minha prece! Estejam teus ouvidos atentos à voz da minha súplica!
    Se tiveres em conta os nossos pecados, Senhor, quem poderá resistir?
    Mas em ti encontramos o perdão; por isso te fazes respeitar.

    Eu espero no SENHOR! Sim, espero! A minha alma confia na sua palavra.
    minha alma volta-se para o Senhor, mais do que a sentinela para a aurora. Mais do que a sentinela espera pela aurora,

    Israel espera pelo SENHOR; porque nele há misericórdia e com Ele é abundante a redenção.
    Ele há-de livrar Israel de todos os seus pecados.

    Carta aos Romanos 8,8-11.

    Os que vivem sob o domínio da carne são incapazes de agradar a Deus.
    Ora vós não estais sob o domínio da carne, mas sob o domínio do Espírito, pressupondo que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não lhe pertence.
    Se Cristo está em vós, o vosso corpo está morto por causa do pecado, mas o Espírito é a vossa vida por causa da justiça.
    E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós.

    Evangelho segundo S. João 11,1-45.

    Estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, terra de Maria e de Marta, sua irmã.
    Maria, cujo irmão, Lázaro, tinha caído doente, era aquela que ungiu os pés do Senhor com perfume e lhos enxugou com os seus cabelos.
    Então, as irmãs enviaram a Jesus este recado: «Senhor, aquele que amas está doente.»
    Ouvindo isto, Jesus disse: «Esta doença não é de morte, mas sim para a glória de Deus, manifestando-se por ela a glória do Filho de Deus.»

    Jesus era muito amigo de Marta, da sua irmã e de Lázaro.
    Mas, quando recebeu a notícia de que este estava doente, ainda se demorou dois dias no lugar onde se encontrava.
    Só depois é que disse aos discípulos: «Vamos outra vez para a Judeia.»
    Disseram-lhe os discípulos: «Rabi, há pouco os judeus procuravam apedrejar-te, e Tu queres ir outra vez para lá?»
    Jesus respondeu: «Não tem doze horas o dia? Se alguém anda de dia, não tropeça, porque tem a luz deste mundo.
    Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz com ele.»

    Depois de ter pronunciado estas palavras, acrescentou: «O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo.»
    Os discípulos disseram então: «Senhor, se ele dorme, vai curar-se!»
    Mas Jesus tinha falado da sua morte, ao passo que eles julgavam que falava do sono natural.
    Então, Jesus disse-lhes claramente: «Lázaro morreu;
    e Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer. Mas vamos ter com ele.»
    Tomé, chamado Gémeo, disse aos companheiros: «Vamos nós também, para morrermos com Ele.»

    Ao chegar, Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias.
    Betânia ficava perto de Jerusalém, a quase uma légua,
    e muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria para lhes darem os pêsames pelo seu irmão.
    Logo que Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, saiu a recebê-lo, enquanto Maria ficou sentada em casa.
    Marta disse, então, a Jesus: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido.
    Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá.»
    Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará.»
    Marta respondeu-lhe: «Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.»
    Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá.
    E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?»
    Ela respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.»

    Dito isto, voltou a casa e foi chamar sua irmã, Maria, dizendo-lhe em voz baixa: «Está cá o Mestre e chama por ti.»
    Assim que ela ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele.
    Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas permanecia no lugar onde Marta lhe viera ao encontro.
    Então, os judeus que estavam com Maria, em casa, para lhe darem os pêsames, ao verem-na levantar-se e sair à pressa, seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para aí chorar.
    Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu caiu-lhe aos pés e disse-lhe: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido.»
    Ao vê-la a chorar e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-se.
    Depois, perguntou: «Onde o pusestes?» Responderam-lhe: «Senhor, vem e verás.»
    Então Jesus começou a chorar.
    Diziam os judeus: «Vede como era seu amigo!»
    Mas alguns deles murmuravam: «Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?»

    Jesus, suspirando de novo intimamente, foi até ao túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra.
    Disse Jesus: «Tirai a pedra.» Marta, a irmã do defunto, disse-lhe: «Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia.»
    Jesus replicou-lhe: «Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?»
    Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos ao céu, disse: «Pai, dou-te graças por me teres atendido.
    Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me enviaste.»
    Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, vem cá para fora!»
    O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Jesus disse-lhes: «Desligai-o e deixai-o andar.»
    Então, muitos dos judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele.

    Comentário ao Santo Evangealho: São Gregório de Nazianzo (330-390), bispo, doutor da Igreja
    Sermão sobre o Santo Baptismo

    “Lázaro, sai para fora”

    “Lázaro, sai para fora!” Deitado no túmulo, ouviste este chamamento imperioso. Haverá voz mais sonora do que a do Verbo? Então, vieste para fora, tu que estavas morto, e não apenas há quatro dias, mas há muito tempo. Ressuscitaste com Cristo […]; caíram-te as ligaduras. Agora, não voltes a cair na morte; não voltes a juntar-te aos que habitavam nos túmulos; não te deixes abafar pelas ligaduras dos teus pecados. É que talvez não pudesses voltar a ressuscitar. Poderias acaso retirar da morte deste mundo a ressurreição de todos, no final dos tempos? […]

    Que o chamamento do Senhor te ressoe, pois, aos ouvidos! Não te feches aos ensinamentos e aos conselhos do Senhor. Se estavas cego e mergulhado em trevas no túmulo, abre os olhos para não te afundares no sono da morte. Na luz do Senhor, contempla a luz; no Espírito de Deus, fixa o teu olhar no Filho. Se acolheres a Palavra, concentrarás na tua alma todo o poder de Cristo, que cura e ressuscita. […] Não receies sofrer para conservares a pureza do teu baptismo e abre no coração os caminhos que te fazem ascender ao Senhor. Conserva cuidadosamente o acto de libertação que recebeste por pura graça. […]

    Sejamos luz, como os discípulos aprenderam a sê-lo Daquele que é a grande Luz: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 14). Sejamos luminárias no mundo, erguendo bem alto a Palavra da vida, sendo poder de vida para os outros. Partamos em busca de Deus, em busca Daquele que é a primeira e a mais pura das luzes.

    SENHOR, MEU DEUS, A TI ME CONFIO

    Sabado, dia 08 de Março de 2008

    S. João de Deus, religioso, fundador, +1550

    Livro de Jeremias 11,18-20.

    O Senhor instruiu-me e eu entendi. E então vi com clareza o seu proceder para comigo.
    E eu, como manso cordeiro conduzido ao matadouro, ignorava as maquinações tramadas contra mim, dizendo: «Destruamos a árvore no seu vigor; arranquemo-la da terra dos vivos, que o seu nome caia no esquecimento.»
    Mas o Senhor do universo, justo juiz, sonda os rins e o coração. Que eu seja testemunha da tua vingança sobre eles, pois a ti confio a minha causa.

    Livro de Salmos 7,2-3.9-10.11-12.

    SENHOR, meu Deus, a ti me confio; livra-me de todos os que me perseguem e salva-me.

    Que não me arrebatem como o leão e me dilacerem, sem que ninguém me valha.SENHOR julga os povos; julga-me, então, SENHOR, segundo o meu direito e segundo a minha inocência.

    Peço-te: acaba com a malícia dos ímpios; fortalece os que são justos, Tu, que perscrutas o íntimo dos corações, ó Deus de justiça!

    Minha protecção está em Deus, que salva os de coração sincero.
    Deus é um justo juiz, que, a todo o momento, pode castigar.

    Evangelho segundo S. João 7,40-53.

    Então, entre a multidão de pessoas que escutaram estas palavras, dizia-se: «Ele é realmente o Profeta.»
    Diziam outros: «É o Messias.» Outros, porém, replicavam: «Mas pode lá ser que o Messias venha da Galileia?!
    Não diz a Escritura que o Messias vem da descendência de David e da cidade de Belém, donde era David?»

    Deste modo, estabeleceu-se um desacordo entre a multidão, por sua causa.
    Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe deitou a mão.
    Depois os guardas voltaram aos sumos sacerdotes e aos fariseus, que lhes perguntaram: «Porque é que não o trouxestes?»

    Os guardas responderam: «Nunca nenhum homem falou assim!»
    Replicaram-lhes os fariseus: «Será que também vós ficastes seduzidos?
    Porventura acreditou nele algum dos chefes, ou dos fariseus?
    Mas essa multidão, que não conhece a Lei, é gente maldita!»

    Nicodemos, aquele que antes fora ter com Jesus e que era um deles, disse-lhes:
    «Porventura permite a nossa Lei julgar um homem, sem antes o ouvir e sem averiguar o que ele anda a fazer?»
    Responderam-lhe eles: «Também tu és galileu? Investiga e verás que da Galileia não sairá nenhum profeta.»
    E cada um foi para sua casa.

    Comentário ao Santo Evangelho: Concílio Vaticano II
    Constituição Apostólica sobre a Igreja, "Lumen Gentium", nº. 9

    Pela sua cruz, Cristo reune os homens divididos e dispersos

    A nova aliança instituiu-a Cristo, como novo testamento no Seu sangue (cfr. 1 Cor. 11,25), chamando o Seu povo de entre os judeus e os gentios, para formar um todo, não segundo a carne mas no Espírito e tornar-se o Povo de Deus...: «raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo conquistado... que outrora não era povo, mas agora é povo de Deus» (1 Ped. 2, 9-10).

    Este povo messiânico, ainda que não abranja de facto todos os homens, e não poucas vezes apareça como um pequeno rebanho, é, contudo, para todo o género humano o mais firme germe de unidade, de esperança e de salvação. Estabelecido por Cristo como comunhão de vida, de caridade e de verdade, é também por Ele assumido como instrumento de redenção universal e enviado a toda a parte como luz do mundo e sal da terra (cfr. Mt. 5, 13-16)... Aos que se voltam com fé para Cristo, autor de salvação e princípio de unidade e de paz, Deus chamou-os e constituiu-os em Igreja, a fim de que ela seja para todos e cada um sacramento visível desta unidade salutar.

    Destinada a estender-se a todas as regiões, ela entra na história dos homens, ao mesmo tempo que transcende os tempos e as fronteiras dos povos. Caminhando por meio de tentações e tribulações, a Igreja é confortada pela força da graça de Deus que lhe foi prometida pelo Senhor para que não se afaste da perfeita fidelidade por causa da fraqueza da carne, mas permaneça digna esposa do seu Senhor, e, sob a acção do Espírito Santo, não cesse de se renovar até, pela cruz, chegar à luz que não conhece ocaso.

    "ENTÃO SABEIS QUEM EU SOU"

    Sexta-feira, dia 07 de Março de 2008

    Santas Perpétua e Felicidade, mártires, +203

    Livro de Sabedoria 2,1.12-22.

    Dizem, com efeito, nos seus falsos raciocínios: «Breve e triste é a nossa vida, não há remédio algum quando chega a morte. E também não se conhece ninguém que tenha regressado do mundo dos mortos.

    Armemos laços ao justo porque nos incomoda, e se opõe à nossa forma de actuar. Censura-nos as transgressões da Lei, acusa-nos de sermos infiéis à nossa educação.
    Ele afirma ter o conhecimento de Deus e chama-se a si mesmo filho do Senhor!
    Ele tornou-se uma viva censura para os nossos pensamentos; só o acto de o vermos nos incomoda, pois a sua vida não é semelhante à dos outros e os seus caminhos são muito diferentes.

    Ele considera-nos como escória e afasta-se dos nossos caminhos como de imundícies. Declara feliz a sorte final do justo e gloria-se de ter a Deus por pai.
    Vejamos, pois, se as suas palavras são verdadeiras, e que lhe acontecerá no fim da vida.
    Porque, se o justo é filho de Deus, Deus há-de ampará-lo e tirá-lo das mãos dos seus adversários.

    Provemo-lo com ultrajes e torturas para avaliar da sua paciência e comprovar a sua resistência.
    Condenemo-lo a uma morte infame, pois, segundo ele diz, Deus o protegerá.»
    Estes são os seus pensamentos, mas enganam-se porque os cega a sua malícia.
    Ignoram os desígnios secretos de Deus, não esperam a recompensa da piedade e não acreditam no prémio reservado às almas simples.

    Livro de Salmos 34(33),17-18.19-20.21.23.

    Ira do SENHOR volta-se contra os malfeitores, para apagar da terra a sua memória.

    Os justos clamaram e o SENHOR atendeu-os e livrou-os das suas angústias.
    SENHOR está perto dos corações contritos e salva os espíritos abatidos.

    Muitas são as tribulações do justo, mas o SENHOR o livra de todas elas.
    Ele guarda todos os seus ossos, nem um só será quebrado.
    SENHOR resgata a vida dos seus servos; os que nele confiam não serão condenados.

    Evangelho segundo S. João 7,1-2.10.25-30.

    Depois disto, Jesus continuava pela Galileia, pois não queria andar pela Judeia, visto que os judeus procuravam matá-lo.
    Estava próxima a festa judaica das Tendas.
    Contudo, depois de os seus irmãos partirem para a festa, Ele partiu também, não publicamente, mas quase em segredo.
    Então, alguns de Jerusalém comentavam: «Não é este a quem procuravam, para o matar?
    Vede como Ele fala livremente e ninguém lhe diz nada! Será que realmente as autoridades se convenceram de que Ele é o Messias?
    Mas nós sabemos donde Ele é, ao passo que, quando chegar o Messias, ninguém saberá donde vem.»
    Entretanto, Jesus, ensinando no templo, bradava: «Então sabeis quem Eu sou e sabeis donde venho?! Pois Eu não venho de mim mesmo; há um outro, verdadeiro, que me enviou, e que vós não conheceis.

    Eu é que o conheço, porque procedo dele e foi Ele que me enviou.»
    Procuravam, então, prendê-lo, mas ninguém lhe deitou a mão, pois a sua hora ainda não tinha chegado.

    Comentário ao Evangelho: Orígenes (cerca 185-253), padre e teólogo
    Comentário a S. João, 19,12

    “Procuravam, então, prendê-lo, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a Sua hora”

    Procurar Jesus é muitas vezes um bem, porque é o mesmo que procurar o Verbo, a verdade e a sabedoria. Mas vocês vão dizer que as palavras “procurar Jesus” são por vezes pronunciadas a propósito dos que lhe querem mal. Por exemplo: “Procuravam, então, prendê-lo, mas ninguém Lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a Sua hora”. “Eu sei que sois a descendência de Abraão, mas vós procurais matar-me porque a Minha palavra não tem cabimento em vós” (Jo 8,37). “Mas vós procurais matar-me, a Mim que vos disse a verdade que ouvi a Deus!” (Jo 8,40).

    Estas palavras… não se opõem a esta outra: “Quem procura encontra” (Mt 7,8). Existem sempre diferenças entre os que procuram Jesus: nem todos O procuram sinceramente para a sua salvação e para obter a Sua ajuda. Há homens que O procuram por inumeráveis razões muito longínquas do bem. É por isso que só os que O procuraram de coração sincero encontraram a paz, aqueles de quem se pode verdadeiramente dizer que procuram o Verbo que está com Deus (Jo 1,1), para que Ele os leve a Seu Pai…

    Ele ameaça ir-se embora se não é acolhido: “Eu vou-me embora: vós haveis de Me procurar” (Jo 8,21)… Ele sabe de quem se afasta e junto de quem permanece sem ser ainda encontrado, para que se O procuram O encontrem no tempo favorável.